terça-feira, 8 de junho de 2010

Matrizes Culturais em Teatro-Educação: referências da contemporaneidade expressas na tradução do corpo cênico

Sérgio Coelho Borges Farias

Bolsista
Carla Bastos da Silva

AGOSTO DE 2007 A JULHO DE 2008

A pesquisa tem como objetivo a caracterização do ensino de teatro em escolas e comunidades de Salvador e da Chapada Diamantina, Bahia, refletindo acerca do corpo cênico e sua construção, identificando nos grupos que trabalham com teatro-educação, quais as matrizes estéticas, culturais, técnicas corporais e poéticas de encenação que são utilizadas pelos professores de teatro em sala de aula e em seus espetáculos didáticos. Fiquei responsável por pesquisar sobre o “Drama”, uma manifestação cultural da comunidade do Vale do Capão na Chapada Diamantina. Percebemos claramente na Bahia uma multiplicidade de matrizes culturais, distribuídas de forma diferenciada entre Salvador, o Recôncavo, o litoral sul e norte, a Chapada Diamantina, o sertão, enfim, as várias regiões geoculturais que compõem este estado. A partir do contato com diversos tipos de cultura na Bahia, senti-me motivada a abordar neste relatório, a manifestação cultural do Vale do Capão “O Drama”. Para isso foi preciso pesquisar sobre a história do Vale do Capão para entender melhor essa manifestação cultural
No inicio tudo era mata fechada, um “buraco cercado de morros”. Contam os mais velhos do vilarejo do Rio Grande que esse buraco era também morada de índios. Mais tarde esse buraco ganhou um nome: Capão dado por um morador do vilarejo do Rio Grande. Mesmo os habitantes dos vilarejos vizinhos não costumavam freqüentar o Capão, pois eles tinham muito medo dos bichos que existiam por lá. Assim, o Capão era habitado pelos índios que viviam da caça da pesca e da colheita. Mais tarde alguns moradores do Rio Grande atreveram - se a conhecer o Capão e descobriram que lá havia muito ouro e diamante, e passaram a explorar essas riquezas. Com a chegada dos coronéis para explorar o ouro e o diamante, o Capão passou a ser reconhecido pelas redondezas como “buraco do ouro e do diamante”. Todos queriam conhecer o bendito Capão, para explorar ou por mera curiosidade. O Capão era o buraco de exploração dos coronéis que aos poucos foi se transformando em morada dos mesmos. Os coronéis construíram grandes lojas de tecidos, pois o ouro não estava mais tão fácil de ser encontrado como em tempos anteriores.
Ouvia-se muito dos coronéis e garimpeiros: “Procura-se tanto e não se encontra mais nada”. Ouro e diamantes já eram lenda. O que restava para os coronéis era investir na plantação, entretanto precisavam de mão de obra. Foi então que os coronéis foram em busca de escravos para cuidarem da plantação e para delimitarem suas terras. Com a chegada dos negros no Capão os coronéis tiveram suas terras muradas pela mão escrava. Aos poucos o Capão foi se transformando num lugar de diversas culturas pela sua formação histórica. Pode-se dizer que havia uma grande mistura de culturas: indígena, européia e africana. Com base nas entrevistas feitas com as senhoras participantes dos processos cênicos, o Drama surgiu dessa mistura de culturas, tendo aproximadamente cem anos de existência. O objetivo principal do meu trabalho nessa pesquisa foi investigar num grupo que atua com teatro-educação, quais as matrizes culturais utilizadas pelos professores de teatro em seus espetáculos didáticos. Este levantamento foi revelador para fundamentar discussões de novos caminhos para este segmento da arte-educação, através das Matrizes Culturais.

2. Materiais e métodos
Descrição da maneira como foram desenvolvidas as atividades para se chegar aos objetivos propostos.


Iniciamos com estudos necessários à fundamentação teórica acerca da temática que foi abordada durante todo o processo de pesquisa. Logo após foi feito um mapeamento das escolas de ensino formal, estadual, ONGs e Comunidades, que trabalhassem com teatro. Em seguida, foi feito levantamento inicial dos grupos em atuação na área de teatro-educação no sentido de facilitar a busca de referenciais práticos e o intercâmbio de informações entre os profissionais da área. A fase seguinte foi a de construção de mecanismos e estratégias de coleta de dados para posteriores análises. Os grupos selecionados para a pesquisa deveriam ter mais de três anos de fundação e já ter realizado mais de uma mostra de seu trabalho. A coleta foi realizada por intermédio de instrumentos como registro de entrevista semi-estruturada e aplicação de questionários. Escolhido o grupo, as entrevistas foram direcionadas aos seus componentes e tiveram como objetivo colher informações sobre as Matrizes Culturais que compunham o Drama. Terminada a fase de coleta de dados, a equipe de pesquisa passou para fase de análise crítica do material coletado. Esta fase teve como estratégia analisar as entrevistas e registros do cotidiano com base em cada interferência nos diversos grupos estudados. O objetivo desta análise foi identificar as Matrizes Culturais adotadas como motivadores do processo de criação e apontar caminhos possíveis para a introdução de elementos da cultura popular para o enriquecimento dos trabalhos cênicos.


3. Resultados
Relação dos resultados ou produtos obtidos durante a execução da pesquisa.


Após o contato com os Dramas da comunidade do Vale do Capão percebi que os próprios Dramas trazem em sua composição a matriz africana, a indígena e a européia como afirma Dona Nadir (70 anos): “Os dramas são histórias cantadas, de negros, índios e brancos que falam sobre a vida deles”.
Trago um trecho do Drama da Tapuia para representar a matriz indígena. “Linda tapuia diz o que ocê quer/com esses cabelos negros já é uma mulher/ não sou não sou/ocê pode ate querer/ para ser uma mulher tenho muito que crescer”. O nome tapuia nos remete à matriz indígena e os cabelos negros também. O drama Moça da Varanda nos remete à matriz européia, por exemplo, pela palavra doutor: “Se achegue meu doutor, minha filha vou te dar/ Espere um instante que a ela vou chamar/Não chame não, tenho algo a te dizer/ vou casar com outra moça que há de me merecer”. Já o drama Minha Crioula nos remete à matriz africana. “Minha crioula venha pra cá/O senhor branco tem muito amor para dar”. Existem muitos Dramas que ainda não foram registrados em texto escrito; em pesquisas futuras seria de grande importância o registro desses Dramas.
As pessoas que moram no Vale do Capão buscam sempre revelar para as gerações futuras as manifestações culturais locais, incentivando para que não sejam esquecidas. Como afirma dona Nadir, “temos um grupo que não só participa senhora, tem crianças também, porque que eu acho interessante que elas apreendam porque senão o drama vai se perder, não tenho problema em ensinar o drama para as pessoas o que eu não quero que ele seje esquecido, isso não! Porque é uma coisa muito bonita”. Revela-se nesta pesquisa a importância de registrar as manifestações e de proporcionar reflexões de questões relacionadas ao cotidiano, cultura e identidade. O Vale do Capão se transformou em um “buraco de mistura de culturas”, representando a história desses povos, no jeito de se falar de se vestir e de se comportar. Tanto as que já estavam ali desde o início, como a cultura indígena, quanto as que foram chegando. É percebível até nos dias atuais uma diversidade de manifestações culturais que representam as matrizes culturais desse lugar. Reisados, Quermesses, Festas Juninas, comemorações da Semana Santa, Capoeira, dentre outras.


Discussão
Expor de modo sucinto a contribuição do seu plano ao projeto de pesquisa do orientador apresentando as implicações para futuros trabalhos que podem ser desenvolvidos.


A identificação com valores culturais do próprio meio e o contato com outras culturas possibilita a formação de um ser humano integral, uma vez que o indivíduo só se percebe integrante, dependente e agente transformador do meio através da consciência de si enquanto ser social. Assim, considerando a necessidade de perceber até que ponto as matrizes culturais da Bahia estão sendo discutidas com os alunos e levando em consideração a sua identificação com tais referências o professor/diretor de teatro que se propõe a cuidar da formação de um ser completo deve esforçar-se por contribuir para uma educação pluricultural, levando como uma das missões básicas do seu trabalho, o que se reflete nas palavras de Duarte Jr.: “estimular o sentimento de si mesmo, incentivar esse sentir-se humano de modo integral, numa ocorrência paralela aos processos intelectuais e reflexivos acerca de sua própria condição humana. Para tanto, a inserção desse sujeito [o educando] numa dada realidade, numa dada comunidade e cultura local não pode ser menosprezada em favor de um universalismo abstrato e extirpador de raízes. Sentir o mundo consiste, primordialmente, em sentir aquela sua porção que tenho ao meu redor...” (DUARTE Jr.: 2004, p.175).
A extirpação de raízes, citada por Duarte Jr., é marcante na educação formal à qual nos submetemos, sempre zelosa em ensinar as grandes verdades universais, o grande pensamento e os grandes pensadores, desconsiderando todo ‘pequeno saber’ da comunidade local e de seus membros, saberes que são muitas vezes ignorados, ridicularizados pelos portadores da oficial sabedoria. Precisamos pensar e valorizar as culturas e principalmente nossas matrizes estéticas e culturais na educação através de uma pedagogia pluricultural.
4. Referências bibliográficas (máximo 15)


BRANDÃO, Carlos Rodrigues. Pesquisa Participante: Repensando a pesquisa participante. 3a edição. S.Paulo: Brasiliense, 1987.

GOLDENBERG, Mirian. A arte de pesquisar: Como fazer pesquisa qualitativa em Ciências Sociais. Rio de Janeiro: Record, 1997.

BARBOSA, Ana Mae. Teoria e Prática da Educação Artística. São Paulo: Cultrix, 1990.
FARIAS,Sérgio; MATOS, Lúcia. Coletâneas PPGE / Programa de Pós-Graduação em Educação – Arte e Educação. Salvador: UFBA, 1999.
CRUCIANI. Fabrício. In: BARBA, Eugênio; SAVARESE, Nicola. A arte secreta do ator. São Paulo, Campinas: Hicitec/Unicamp, 1995. p.26.
SILVA, Renata de Lima. Mandinga da rua: a construção do corpo cênico a partir de elementos da cultura popular urbana. Campinas, SP: [s.n.], 2004. Dissertação de Mestrado.

BIÃO, Armindo et al (org). Temas da Contemporaneidade, imaginário e teatralidade. São Paulo: Annablume: Salvador: GIPE-CIT, 2000.

CABRAL, Beatriz (org). Ensino do teatro: experiências interculturais. Florianópolis: Imprensa Universitária, 1999.

LEITE, Roberto Wagner. Ritmos e danças populares na Bahia moderna. In: Revista da Bahia: Folguedos, Nº38, ANO 2004.. Fundação Cultural da Bahia. Disponível em: http://www.fundacaocultural.ba.gov.br/04/revista%20da%20bahia/Folguedos/index.htm
Acesso em: 22/08/06.

Anexo:
Dialogando com dona Nadi
Através de uma entrevista feita com dona Nadir, tive informações sobre o drama na Comunidade do Vale do Capão. O Vale do Capão é um pequeno povoado entre as montanhas com aproximadamente mil habitantes, numa altitude de cerca de novecentos metros. As montanhas ao seu redor alcançam os 1450 m. Em 1945 passou a ser Distrito de Caeté-Açú, pertencente ao município de Palmeiras, na Chapada Diamantina no centro geográfico do estado da Bahia.
Dona Nadir é moradora da comunidade, sempre participou das manifestações culturais do Capão, foi ela quem liderou o Reisado e até hoje é ela quem coordena as festas, ela está sempre participando de eventos culturais na comunidade. Fiz uma entrevista com dona Nadir para sabermos mais sobre “O Drama”, pois considero de grande interesse essa manifestação cultural por ser da minha região e por ser tão bonita tanto para os que fazem quanto para os que assistem.
O que é o Drama?
Nadir: Os dramas são histórias cantadas, que fala sobre a vida das pessoas ou sobre enamorados, sobre enamorados é o que mais tem.
Como surgiu O Drama?
Nadir: Quem trouxe o drama para o capão foi uma professora de Feira de Santana, ela que ensinou para a gente, ela ensinava e a gente aprendia.
Há quanto tempo existe O Drama no Capão?
Nadir: O Drama existe há mais de cem anos porque a professora não ensinou para mim ela ensinou para meus pais, aí eu aprendi com eles e com meus irmãos e daí em diante eu fui ensinando.
Onde eram apresentados os Dramas?
Nadir: Os dramas eram representados nas casas das pessoas, quando tinha alguma festa e também nas escolas.
Como é que se representa um Drama?
Nadir: Você pode representar um drama sozinho ou pode ser em grupo, já vem no próprio drama quando é junto ou quando é sozinho, dá para perceber, por exemplo, tem o drama moça da varanda que precisa de três pessoas para representar que é o pai, a mãe e a filha. No drama Troca de Marido são duas senhoras.
Precisa de que para apresentar os dramas?
Nadir: precisa de um palco, alguma coisa para a gente ficar no alto e uma cortina, a cortina é muito importante, não tem como você fazer um drama sem cortina, porque assim que um termina de apresentar fecha a cortina e abre para apresentar o próximo drama.
Como é que se veste na hora de apresentar?
Nadir: a gente se veste de acordo, se for homem, procura uma calça, blusa, chapéu, cinto, se for mulher coloca uma saia e uma blusa ou um vestido.
Quantos dramas existem?
Nadir: existem muitos dramas, mais de 100, è muito drama que existe.
Alguém já registrou alguma vez os dramas?
Nadir: não, tinha um povo querendo registrar, mas acabou não registrando.
O Drama esta sendo esquecido?
Nadir: temos um grupo que não só participa senhora tem crianças também, porque que eu acho interessante que elas apreendam porque senão o drama vai se perder, não tenho problema em ensinar o drama para as pessoas o que eu não quero que ele seje esquecido, isso não! Porque é uma coisa muito bonita.
Houve alguma transformação no Drama?
Nadir: Não. Mas se precisar e o grupo concordar eu acho que pode mudar, sim, o que eu não acho certo é querer mudar sem saber por que está mudando, isso eu não concordo.
Você poderia dizer um drama?
Nadir: Sim, o do marinheiro. Sou filha de um pobre barqueiro fui criada nas ondas do mar sempre, sempre papai me dizia: vem filinha ajudar a remar, a remar. Fui crescendo e crescendo e contando as estrelas do céu a brilhar, sempre, sempre, papai me dizia: vem filinha, ajudar a remar, a remar.

Tradições Culturais Afro-Brasileiras, Teatralidade e Contemporaneidade: Um Estudo de Caso nos Campos da Etnocenologia e do Teatro-Educação.

Sérgio Coelho Borges Farias

Bolsistas IC
Alexandre Geisler de Brito Lira
Eliete Teles dos Santos

EDITAL PIBIC/UFBA 01/2007

Com o presente projeto pretende-se inicialmente identificar manifestações espetaculares organizadas, em diferentes espaços no bairro de Itinga, Município de Lauro de Freitas, focalizando os diálogos possíveis entre as tradições culturais afro-brasileiras e elementos da contemporaneidade.
A partir da compreensão do processo de constantes mudanças e (re)significações que envolvem as tradições culturais no contato com outras referências, buscar-se-á identificar motivações significativas para o desenvolvimento dos membros dos grupos culturais envolvidos. Tais motivações serão, posteriormente, numa segunda etapa da pesquisa, discutidas com os integrantes do grupo de teatro Novo Caminho, da comunidade de Itinga, através de uma metodologia que revela as relações entre tradição e contemporaneidade, explorando-as no processo de aula e na construção da cena didática.
A identificação com valores culturais do próprio meio e o contato com outras culturas favorece a formação integral do ser, uma vez que o indivíduo só se percebe integrante e agente transformador do meio através da consciência de si enquanto ser social. Tanto as tradições culturais afro-brasileiras (capoeira, candomblé, dança-afro, etc.) quanto manifestações espetaculares contemporâneas (hip hop, arrocha, pagode, etc.), são recorrentes na comunidade de Itinga, porém são pouco exploradas nos grupos teatrais.
Que tradições culturais afro-brasileiras são mais presentes no bairro de Itinga? Que elementos da contemporaneidade são mais disseminados nesta localidade? Como se dá o diálogo entre tradições culturais afro-brasileiras e elementos da contemporaneidade nas diversas organizações onde ocorrem os comportamentos espetaculares organizados em Itinga? Como é tratada a matriz africana e que elementos da mesma são mais abordados nas aulas de teatro e nas cenas didáticas? Questões como estas servem de base para que com este projeto sejam encontrados caminhos metodológicos que possam ser inseridos no cotidiano do ensino de teatro.
No projeto desenvolvido pela equipe no período de agosto 2006 a julho 2007, foram observadas, nos grupos de teatro-educação de Salvador e Região Metropolitana pesquisados, estratégias que possibilitavam a construção do conhecimento em teatro apoiada no diálogo entre as tradições culturais e os elementos da contemporaneidade expressos no corpo, no comportamento e na fala de cada membro dos grupos. O caminho pedagógico desenvolvido a partir de tais estratégias foi sistematizado após uma série de discussões com o grupo de pesquisa. Com a presente pesquisa pretende-se, na sua segunda etapa, aplicar esta metodologia, descrita no próximo item.
Um dos questionamentos principais desta pesquisa é em que o estudo no campo da Etnocenologia pode contribuir para o desenvolvimento de propostas metodológicas do ensino de teatro. Na Etnocenologia, a diversidade das práticas e comportamentos humanos espetacularizados (minoritários ou não, tradicionais ou não, reprimidos ou incentivados), favorece os estudos de temas situados nas interfaces típicas da contemporaneidade.
Partimos do pressuposto de que a Etnocenologia, por ser um campo de estudo que não se utiliza de paradigmas rígidos e que possui como característica a interdisciplinaridade, permite a abordagem de aspectos cotidianos e extra-cotidianos da teatralidade, a partir da intencionalidade que é própria a essa teatralidade.
A abordagem da teatralização da vida cotidiana, com base nas teorias da sociologia compreensiva de Michel Maffesoli, tem como objetivo apresentar ao estudante de Teatro uma nova compreensão do fenômeno da comunicação e da expressão artística.
Assim, a partir de um levantamento geral de como os grupos culturais sediados em Itinga entendem e expressam as relações entre tradições afro-brasileiras e contemporaneidade, busca-se identificar procedimentos didáticos que incluam o diálogo entre os diversos referenciais culturais presentes na comunidade.

Metodologia

O grupo de pesquisa dará início às investigações fazendo os estudos necessários à fundamentação teórica acerca da temática que será abordada durante todo o projeto. As leituras feitas pelo grupo dirão respeito a: Etnocenologia, tradições culturais afro-brasileiras, teatralidade, contemporaneidade e pedagogia do teatro, temas que contemplam as discussões que serão necessárias ao longo da realização do projeto em 2007/2008.
A fase seguinte será a construção de mecanismos e estratégias para a coleta de dados para posterior análise. Será realizado um levantamento de grupos onde se desenvolvam atividades ligadas aos comportamentos espetaculares organizados no bairro de Itinga. Integrantes dos grupos serão entrevistados no sentido de se identificar suas concepções acerca do diálogo entre tradições e elementos culturais da contemporaneidade.
Os grupos serão selecionados a partir do seguinte critério: grupos que funcionem há mais de seis meses e que possuam como característica a valorização e a vivência das tradições afro-brasileiras. A coleta de dados na primeira etapa será realizada por meio de observação, entrevista semi-estruturada e formulário. As entrevistas serão direcionadas aos coordenadores e aos membros dos grupos culturais identificados. Terão como objetivo fazer emergir aspectos sobre a organização do grupo, o processo criativo, bem como uma avaliação de cada participante sobre as atividades desenvolvidas no grupo, ligadas ao tema principal desta pesquisa, visando também identificar o impacto das ações destes grupos na comunidade local.
Terminada a fase de coleta de dados, o gupo de pesquisa fará a análise crítica do material coletado, comparando-se os dados dos diferentes grupos.
Na segunda etapa da pesquisa haverá uma interferência em campo junto ao grupo de teatro Novo Caminho, no sentido da aplicação da seguinte proposta metodológica: 1) levantamento de elementos culturais, individuais e coletivos, que compõem a cultura do grupo, identificados através de improvisações livres, debates e observação dos sentidos expressos; 2) seleção de atividades, jogos e técnicas corporais e vocais que deflagrem reflexões no grupo sobre suas referências e sobre elementos que são próprios daquela cultura, e que estimulem a curiosidade sobre sua realidade e tradições; 3) busca de respostas, pelos participantes do grupo em contato com os demais grupos culturais da comunidade, para questões surgidas no processo, acerca dos fenômenos culturais e das matrizes étnicas e estéticas que se destacam em sua realidade; 4) construção coletiva de uma encenação a partir do que foi desenvolvido no processo educativo; 5) identificação de novos elementos para pesquisas e composições cênicas, com base na avaliação da experiência.
Finalmente, a equipe de pesquisa elaborará um relatório contendo a descrição das atividades desenvolvidas, a análise dos dados e a proposta metodológica de teatro-educação.

Viabilidade e Financiamento

Os equipamentos para registro fotográfico, videográfico e sonoro foram concedidos ao grupo de pesquisa pelo CNPq através de projeto anterior. A Escola de Teatro dispõe de equipamentos de informática para a digitação dos relatórios. As despesas de deslocamento para a comunidade situada em Lauro de Freitas ficarão por conta de cada membro da equipe de pesquisa


Resultados e Impactos Esperados

Registros acerca das tradições culturais afro-brasileiras e dos elementos da contemporaneidade resultarão da primeira etapa do trabalho, que será de levantamento de informações junto aos grupos ligados às manifestações culturais no bairro de Itinga, município de Lauro de Freitas.
Identificação da repercussão das ações destes grupos na comunidade, especialmente no que se refere a cultura afro-brasileira e contemporânea. Outro resultado será a análise da influência destas manifestações no grupo de teatro.
Numa segunda etapa o impacto da metodologia de ensino de teatro, ocorrerá, nos participantes, no domínio cognitivo, afetivo e psicomotor, potencializando suas habilidades em: prestar atenção, dar respostas, valorar, organizar sistema de valores e desenvolver sua visão de mundo e filosofia de vida.
Ocorrerá a aprendizagem no campo da etnocenologia, incluindo a compreensão das manifestações espetaculares da cultura local e seu papel no desenvolvimento do educando enquanto ser social.
No que se refere aos bolsistas espera-se que desenvolvam o pensamento crítico-interpretativo e que isto seja uma contribuição para sua formação como pesquisadores, capazes de articular idéias de áreas distintas, com autonomia para estabelecer metas e fazer escolhas, conviver com pessoas diferentes facilitando sua comunicação e trabalho em equipe.
Serão elaborados relatórios técnicos pelos membros da equipe de pesquisa, artigos para publicação em anais de eventos e periódicos, além de comunicações no seminário de pesquisa da UFBA.
Finalmente, haverá uma encenação resultante do processo de criação artística desenvolvido com o grupo de teatro Novo Caminho.

Cronograma de Execução

• Estudo bibliográfico referente à fundamentação teórica do projeto - agosto e setembro de 2007;

• Planejamento e preparação para interferência na primeira etapa de investigação (elaboração de formulário, roteiros de entrevistas e planos de observação) - setembro de 2007;

• Primeira etapa de levantamento em campo (grupos culturais) – setembro e outubro de 2007;

• Análise dos dados da primeira etapa - outubro de 2007;

• Planejamento e preparação para Interferência na segunda etapa de investigação e contato com o grupo selecionado - novembro de 2007;

• Segunda etapa de interferência em campo (aplicação da metodologia com o Grupo Novo Caminho) – novembro de 2007 a maio de 2008;

• Relatório parcial de atividades - fevereiro de 2008;

• Análise dos dados da segunda etapa de interferência em campo e redação do relatório final do projeto – maio a julho de 2008;

• Apresentação de resultados da pesquisa no Seminário de Pesquisa da UFBA – segundo semestre de 2008.



Referências Bibliográficas

BIÃO, Armindo et al (org). Temas de Contemporaneidade, imaginário e teatralidade. São Paulo: Annablume: Salvador: GIPE-CIT, 2000.

CARREIRA, A.; FARIAS, S.; CABRAL, B.; RAMOS, Luis Fernando(org). Metodologias de Pesquisa em Artes Cênicas. Rio de Janeiro: 7Letras, 2006.

CABRAL, Beatriz (Org) Ensino do teatro: experiências interculturais. Florianópolis: Imprensa Universitária, 1999.

CARVALHO, José Jorge. O Lugar da Cultura Tradicional na Sociedade Moderna. Em: Seminário Folclore e Cultura Popular. As Várias Faces de um Debate. Rio de Janeiro: INF/Ibac, 1992: 23-38.

___________ A Sensibilidade Modernista Face às Tradições Populares. Série Antropologia. Brasília: Universidade de Brasília, 2000.

LEITAO, Claudia (org.). Gestão Cultural: significados e dilemas na contemporaneidade. Fortaleza: Banco do Nordeste, 2003.

MAFFESOLI, Michel. A contemplação do mundo. Tradução: Francisco Franke Settineri. Porto Alegre: Artes e Ofícios, 1995.

_________________. O imaginário é uma realidade. In: Revista Famecos, número 15, Porto Alegre: 2001.

ROHDEN, Huberto. Educação do homem integral. São Paulo: Martim Claret, 2005.

WEFFORT, Francisco C. A cultura e as revoluções da modernização. Rio de Janeiro: Edições Fundo Nacional de Cultura, 2000.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

A IMPORTÂNCIA DOS SENTIDOS EXPRESSOS PARA A FORMAÇÃO DO CIDADÃO.

ESTUDANTE(S):
Carla Bastos da Silva / Escola de Teatro (CNPq) - UFBA Daniele Cristina Oliveira / Escola de Teatro - UFBA


ORIENTADOR(A)
Sérgio Coelho Borges Farias / Escola de Teatro - UFBA


RESUMO DO TRABALHO:
O presente trabalho tem como objetivo dar suporte teórico e prático sobre dramaturgia aos grupos da comunidade do Vale do Capão - BA, proporcionando a eles leituras de textos dramáticos e análise desses com a composição de uma metodologia na aplicação do teatro na educação instrumental. Tratando o estudo da dramaturgia como fator preponderante na construção da obra teatral que será sistematizada a partir da experiência prática e pedagógica. Com intuito de contribuir para uma melhor qualidade das encenações teatrais através da "leitura branca, leitura dramática e encenação de um texto dramático". Através dessa metodologia aplicada temos como objetivo permitir envolver o cidadão no refletir e produzir arte, na valorização dos bens culturais em sua diversidade, ampliando conseqüentemente os mecanismos de participação e mobilidade social dos indivíduos envolvidos no processo. Os valores culturais existentes foram merecedores de atenção com vista a possibilitar a reflexão sobre a produção cultural do local e do desenvolvimento de novas formas de vivências na construção de textos dramáticos baseados na realidade histórica. Acreditando no teatro como elemento mediador para o fortalecimento da identidade sócio-cultural dessas pessoas, essa pesquisa será de grande contribuição para novas percepções e atuações dos cidadãos envolvidos no processo.
PALAVRAS CHAVE: Teatro-educação, Dramaturgia, Recepção
TÍTULO DO PROJETO DO ORIENTADOR: A Dramaturgia e os Sentidos Expressos por jovens espectadores de Teatro na Bahia

A PRODUÇÃO DE ENCENAÇÕES COM DRAMATURGIAS DIVERSAS, E A IMPORTÂNCIA DOS SENTIDOS EXPRESSOS PARA A FORMAÇÃO DO CIDADÃO

ESTUDANTE(S):
Daniele Cristina Oliveira / Escola de Teatro (CNPq) - UFB A Daiseane da Silva Andrade / Escola de Teatro (CNPq) - UFBA

ORIENTADOR(A):
Sérgio Coelho Borges Farias / Escola de Teatro - UFBA


RESUMO DO TRABALHO:
A pesquisa "A Dramaturgia e os Sentidos Expressos por Jovens Espectadores de Teatro da Bahia" tem como problema focai, a dificuldade do ensino de teatro na educação e o estudo da dramaturgia e da recepção do educando espectador. Seu principal objetivo é a criação de uma metodologia para o ensino da arte teatral na educação instrumental fazendo da dramaturgia a base na construção da obra e também a produção de conhecimentos a cerca da recepção, percepção e expressão advindas da apreciação da obra teatral. O produto da pesquisa foi a criação de uma metodologia de ensino e pesquisa, com bases na metodologia de pesquisa participante, um processo de tratamento da dramaturgia, composto por seis fases e a criação de um jogo dramático composto por quatro fases, que propõe o desenvolvimento do educando como artista e cidadão focalizando a concepção do texto dramático.
PALAVRAS CHAVE: Dramaturgia, Recepção, Teatro-Educação
TÍTULO DO PROJETO DO ORIENTADOR: A Dramaturgia e os Sentidos Expressos por jovens Espectadores de Teatro da Bahia

As Artes Cênicas e a questão da formação da cidadania na sociedade contemporânea:

Sergio Coelho Borges Farias
Faculdade de Educação
Escola de Teatro
Universidade Federal da Bahia.

A sociedade brasileira, fundada numa estrutura social de contrastes, desigualdades e injustiças, encontra-se ainda baseada num sistema de barreiras que dificultam ou praticamente impedem a autonomia, a mobilidade e a ascensão social de amplos setores da população.

Um dos suportes desse quadro de relações de dependência e de dominação é o sistema de educação. Quando os integrantes desses setores populares têm acesso à educação formal, deparam-se com um ensino de baixa qualidade, que, em geral, ignora ou nega as identidades individuais e grupais, e não considera o ambiente social e a cultura própria do educando.

Novos paradigmas, entretanto, vêm se constituindo no campo da educação, indicando possibilidades da mesma acentuar valores humanísticos e formar sujeitos empreendedores, com múltiplas habilidades, incluindo as que se referem ao controle e à distribuição das informações.

A concepção de educação para a cidadania, componente de alguns desses paradigmas, surge no âmbito de um amplo movimento da sociedade civil, que parte da crítica da perspectiva assistencialista e da má qualidade da educação pública destinada às camadas populares, e que apresenta propostas para superação da condição subalterna dessas camadas, indicando possíveis caminhos em direção à sua autonomia.

O conceito de cidadania

Cidadão, no passado, era sinônimo de membro respeitável da sociedade. Nos tempos atuais o conceito de cidadão contempla todo membro da comunidade humana com direitos e deveres pessoais, universais, inalienáveis, naturais, transculturais, transhistóricos e transgeográficos.

É somente no século XIX que a questão dos direitos do homem assume um viés político, concretizando o acesso ao voto universal. No século XX, palco de lutas pela garantia dos direitos, da segurança econômica e social e da participação na distribuição da riqueza, constitui-se a cidadania social. O conceito de cidadania torna-se mais complexo envolvendo, ao mesmo tempo, o acesso a bens e serviços e a equalização social como garantia dos direitos.

É assim que se coloca inicialmente a questão da educação para a cidadania, que, para Balestreri, é educar para o reconhecimento da condição de direitos e deveres, independente de credo, raça, nação ou estrato social. Para o autor, é também educar para reconhecer e respeitar as diferenças no plano individual, combater os preconceitos, as discriminações, os privilégios no plano social. É educar para a luta política.

De acordo com essa conceituação, vemos que a educação para a cidadania deve ir além do nível discursivo, para ser exercida plenamente pela vivência, a partir de um conteúdo articulado com a ação transformadora do quadro social que se deseja aperfeiçoar.

Outro elemento que se apresenta como fundamental no tratamento da questão do direito a ter direitos (que, por sua vez, vão desde a moradia e a saúde, até a proteção ambiental) é a necessidade de articulação do direito à igualdade com o direito à diferença. Assim, a noção contemporânea de cidadania deve, hoje, incorporar as dimensões da subjetividade, do desejo, em suma, dos interesses.

Para o exercício da cidadania apoiada no direito a ter direitos, o caminho é, então, o tornar-se cidadão. Introduz-se, assim, uma nova dimensão, que é a de cidadania cultural, que incorpora a relação entre igualdade e diferenças na abordagem dos grupos étnico-culturais. É preciso garantir não só o acesso de todos aos bens obtidos ou construídos coletivamente (igualdade), mas também o direito de cada grupo étnico-cultural ter suas referências próprias, em geral resultantes de seu processo histórico, e não necessariamente comuns à maioria da população ou adotada oficialmente pelo Estado.

Sabemos que o acesso a bens e serviços, embora condição essencial para o exercício da cidadania, não garante o seu exercício pleno. O conhecimento sistemático, transmitido (e, por vezes, re-construído) via educação escolar, por exemplo, ao tempo em que se constitui num elemento importante na construção da cidadania, pode ser ensinado juntamente com hábitos e atitudes incompatíveis com uma prática cidadã. A idéia de que a equalização social se daria via democratização do acesso à Educação, encontra-se, hoje, superada.

Nesse contexto é que diversas instituições e grupos vêm, em todo o Brasil, desenvolvendo uma prática sócio-educativa alternativa com jovens e crianças, voltada para a formação da cidadania. De um modo geral, a prática dessas instituições tem as seguintes características:

• Utilizam metodologias inovadoras, de caráter interdisciplinar, com técnicas integrativas que proporcionam o diálogo entre educando e educador;
• Procuram integrar a família, o que só às vezes conseguem, e com muita dificuldade, nos processos de acompanhamento e avaliação da prática educacional;
• Desenvolvem um trabalho de reforço da auto-estima do educando, elemento fundamental para seu crescimento intelectual;
• Abordam a questão do significado da formação educacional como ferramenta para a mobilidade social.

Experiências de formação para a cidadania com arte-educação

Tendo como objetivo formar cidadãos conscientes de si, do outro, da realidade que os cerca e da sua capacidade de transformação, para que os mesmos venham a se inserir em práticas sociais de caráter solidário, é que diversas organizações, governamentais ou não governamentais, estimulam a percepção da igualdade e das diferenças, através da construção e reconstrução da identidade (ou identificação) cultural e da auto-estima. As artes cênicas aparecem como instrumentais privilegiados nesses processos de educação não-formal.

No Ceará, a Edisca – Escola de Dança e Integração Social para Criança e Adolescente realiza espetáculos com temas da cultura do Nordeste e com o povo nordestino como protagonista. Dora Andrade, sua diretora, vem mostrando nos palcos que é possível interferir no percurso de crianças e jovens que tinham as marcas do clima seco e da pobreza da região em que ela atua. São mais de 250 alunos que freqüentam a Edisca, com aulas de história da arte, teatro, canto e artes plásticas, além da dança. Eles recebem também atendimento médico, noções de higiene, alimentação e sexualidade, além de apoio aos estudos na rede formal de ensino. Alguns deles usam o que aprendem na Edisca para se colocarem no mercado de trabalho, assumindo, por vezes, o sustento da própria família. Entidades como essa demonstram que é possível realizar arte-educação numa perspectiva de formação para a cidadania, com recursos limitados. Projetos semelhantes estão sendo encaminhados pelo Ballet Stagium, de S. Paulo e pelo Grupo Corpo, de B. Horizonte.

Outra iniciativa é a da Associação Dançando para Não Dançar, do Rio. Thereza Aguilar, desde 1993, promove o ensino de balé clássico para moradores de sete favelas da cidade. Os alunos são crianças que vivem em situação de risco, e vários deles após a formação na Associação encaminham-se para Companhias de dança e alguns chegam a fazer estágios no exterior.

O Projeto Luar, na Baixada Fluminense, oferece aulas de dança clássica e contemporânea para cerca de 700 crianças e jovens. A Cia. Étnica de Dança e Teatro, também do Rio, realiza um trabalho com sessenta adolescentes no Morro do Andaraí reunindo movimentos oriundos das danças: clássica, afro-brasileira, indígena, oriental, e até das lutas, como explica Carmem Lux, graduada em Literatura e pós-graduada em Teatro. Carmem, coreógrafa autodidata que se considera uma performer, reconhece que usa e abusa dos movimentos corporais para discutir questões sociais de extrema gravidade, estimulando os alunos a usarem os espaços públicos, e impressionando pelo profissionalismo apesar da total falta de apoio material e financeiro. Agora o BNDES acena com a possibilidade de apoio ao trabalho de Carmem, o que já vem fazendo há cerca de três anos, a fundo perdido, com dezenas de projetos de cunho social, dentre eles, 81 iniciativas na área de arte-educação.

Algumas instituições apóiam trabalhos de arte-educação, como os Institutos Ayrton Senna e Credicard, e empresas como Petrobrás, Nestlé, Shell e até a Lufthansa. Por um lado, esse apoio garante um serviço, importante para a sociedade, que o Estado não vem sendo capaz de garantir, e, por outro lado, contribui para a formação de uma boa imagem das empresas perante a população.

Na Bahia, o Projeto Axé destaca-se entre as instituições que vêm promovendo a formação de jovens dos setores populares para a cidadania, através da arte. Marle Macedo, coordenadora de cultura e arte explica que a entidade não vê a arte apenas como meio auxiliar na educação, mas sim como educação em si. Segundo Marle, são várias as formas de acesso à arte no Axé: o aprendizado técnico e teórico, com vista à profissionalização dos educandos; a sensibilização, buscando por meio da informação e da apreciação propiciar a experiência estética; e a motivação para a prática artística através do contato direto e prazeroso do jovem com a arte.

O Axé, desde a sua criação, em 1990, esteve voltado para a educação de crianças em situação de rua, ou seja, rianças dormindo e sobrevivendo na rua, crianças que estavam fora da família, da escola e da comunidade. Com o tempo, foram sendo também envolvidas as famílias das crianças e foi surgindo uma demanda espontânea de jovens em risco social que continuavam a viver com suas famílias, em bairros periféricos de Salvador. O projeto foi então ganhando uma dimensão mais ampla. O Axé, atualmente, promove também a capacitação de educadores e agentes sociais, para utilização de sua metodologia.

A Fundac, Fundação da Criança e do Adolescente, órgão do Governo do Estado da Bahia, encarregado do atendimento ao menor infrator, além das atividades de escolarização e profissionalizantes, oferece uma série de oficinas de arte que atendem às necessidades de re-socialização dos adolescentes em privação de liberdade, na perspectiva da valorização do indivíduo (considerando-se toda a sua experiência de vida), e do desenvolvimento de sua auto-estima.

O Liceu de Artes e Ofícios desenvolveu, em conjunto com a Secretaria de Educação e a Secretaria de Cultura do Estado da Bahia, durante quatro anos, o projeto Quem Ama Preserva. Oficinas de teatro foram realizadas em diversas escolas, envolvendo alunos professores e diretores. Delas resultou um texto que foi encenado por um grupo de atores contratados. O espetáculo intitulado Cuida bem de mim foi apresentado centenas de vezes, para um público de estudantes e professores, da maioria das escolas de ensino médio de Salvador e do interior do estado.

O tema colocado em pauta pelo Liceu era a depredação das escolas públicas, com desdobramentos referentes a suas possíveis causas e condicionantes. Os espectadores debatiam os temas abordados pelo espetáculo, após cada apresentação. Mesmo havendo um tema central, abordava-se, com o espetáculo, todas as questões referentes à escola pública, da questão salarial dos professores aos conflitos familiares vividos pelos alunos. Muitos desdobramentos desse trabalho de apreciação do espetáculo surgiram nas escolas, através de iniciativas concretas de cuidado com o espaço coletivo e de ações integradoras e cooperativas.

Os trabalhos desenvolvidos pelo Cria - Centro de Referência Integral para Adolescentes, em Salvador, estão baseados principalmente no teatro e enfocam temas sociais emergentes e de interesse dos jovens como sexualidade, educação, etnia, violência, discriminação, cidadania e meio ambiente, numa abordagem integrada, que articula aspectos bio-psico-sociais e culturais.

A metodologia adotada pelo Cria integra as linguagens artísticas em trabalhos de grupo, articulando o sentir, o pensar e o fazer, buscando o desenvolvimento da auto-estima, da criatividade e da consciência crítica, para exercício pleno da cidadania. Para isso o Cria recorre a procedimentos que consideram a integralidade do ser, e que consideram que o educando é dotado de um corpo pensante e de sentimentos, com múltiplas possibilidades de expressão e comunicação.

Muitas oficinas de teatro já foram realizadas pelo Cria, e dois grupos de teatro, A Tribo do Teatro e o Mais de Mil, estão em atividade constante, renovando-se a cada oficina. Suas apresentações são sempre seguidas de debate com a platéia, em escolas, centros de saúde e teatros. O Cria estende sua experiência também através da capacitação de professores da rede pública e de profissionais dos serviços de saúde, e da formação de jovens multiplicadores que passam a atuar como lideranças em suas escolas e comunidades.

Competências a serem desenvolvidas numa nova sociedade

Tendo em vista a necessidade de se respeitar a identidade cultural, que tipo de habilidade e de capacidade é preciso se desenvolver nos participantes dos processos educativos, para que esses indivíduos exerçam não só sua competência técnica, mas também sua criatividade e sua sensibilidade? E como a arte-educação pode contribuir com esse processo?

Robert e Michèle Root-Bernstein, autores do livro Lampejos de gênio (Sparks of Genius, Houghton Mifflin Co., 1999), indicam como fundamentais as capacidades de observação e de abstração, ressaltando que a articulação entre intelecto e intuição é fundamental para que o indivíduo exerça sua capacidade de imaginação.

A capacidade de perceber o mundo e criticá-lo, permite-nos discernir padrões adequados de ação social, abstrair princípios norteadores de conduta, estabelecer analogias, criar modelos próprios, individual e coletivamente, e promover inovações construtivas.

No que se refere ao ator, a capacidade de criar imagens é fundamental para seu trabalho. A visualização das falas, por exemplo, no processo de construção e interpretação de personagens, através do método da análise ativa (Stanislávski), requer agilidade de pensamento visual. Tendo que fazer isso em cena, o ator deve ser capaz de imaginar formas com os olhos abertos, sobrepondo-as a outras formas; formas que mudam de cor, tamanho, perspectiva, etc. O ator não pode, ou não deve, desenhar, ou traçar com os dedos os contornos da forma que precisa imaginar; nem é o caso de fechar os olhos, como muitas pessoas fazem para ver algo que não está materializado diante de si. Em suma, observar, imaginar, e criar são habilidades, dentre outras, que são aprendidas e aperfeiçoadas. A arte-educação baseada no teatro pode dar uma contribuição significativa para esse tipo de aprendizagem, além de ser um campo privilegiado para articulação entre intelecto e intuição.

Os procedimentos de leitura de um texto dramático, ou de um texto de história, bem como a apreciação de um espetáculo, podem, e devem, ser usados como recursos para o desenvolvimento da capacidade de imaginar. Um exercício de teatro, durante o qual alguns alunos contam seqüencialmente uma história enquanto outros a vão representando, é uma forma de se exercitar essa capacidade.

Costumamos utilizar também um exercício que inclui um relaxamento inicial, com o ator deitado, percebendo a sua respiração, as tensões do seu corpo, a relação do mesmo com o solo. Em seguida, os participantes são convidados a permanecerem com os olhos fechados, imaginarem uma grande superfície e a partir de nossas indicações irem compondo imagens, cenas e situações dramáticas, com cores, objetos, texturas, figuras humanas (personagens), dialogando com as mesmas, estabelecendo conflitos e elaborando finais para os enredos criados no campo do imaginário.

Define-se abstração como sendo a possibilidade de se considerar um objeto ou um grupo de objetos sob um ponto de vista, ao mesmo tempo em que se descartam todas as suas outras propriedades. Por outro lado, o movimento inverso também é fundamental para a percepção do objeto: a partir de um elemento, conseguir chegar ao conjunto, ao todo, elaborar conceitos, estabelecer relações e analogias, criar conceitos a respeito de dimensões que vão além do espaço e do tempo já conhecidos, elaborar sínteses (afinal, os espetáculos são expressões sintéticas de longos processos criativos coletivos) reconhecer padrões, o que, por sua vez, requer observação e análise.

Dos padrões que reconhecemos, retiramos princípios gerais de percepção e de ação e buscamos neles nossas expectativas. Introduzimos neles outras observações e experiências formando, então, novos padrões.

Formular abstrações é outra habilidade que pode ser desenvolvida em processos de arte-educação. Por exemplo, ao se criar uma cena, escolhe-se um tema e um ponto de vista; pensa-se de uma maneira realista sobre eles; brinca-se mentalmente com seus vários elementos, definindo-se, depois, o que é essencial; busca-se alternativas aos resultados obtidos, procurando-se um distanciamento deles; enuncia-se a abstração, escolhendo-se um meio ou uma linguagem para expressa-la, extraindo-se dela, em seguida, um conceito ou metáfora.

O elemento lúdico, muito presente na prática teatral, é também importante para a consecução do ato criativo. As idéias e a intuição são transformadas por meio dos vários mecanismos de pensamento e são expressas através de diferentes linguagens. O uso simultâneo de múltiplos instrumentos imaginativos revela um pensamento transformador, fundamental para o exercício da cidadania, que requer a fluência na comunicação.

Para alcançar a fluência nos processos de comunicação, por sua vez, é fundamental o estabelecimento da empatia. Em todos os campos de trabalho, como entre médico e paciente, entre vendedor e comprador, entre advogado e cliente, é preciso ocorrer identificação, empatia. Colocar-se no lugar do outro (algo que é praticado intensamente no teatro) é um caminho para se chegar à empatia. O ator pode desenvolver essa capacidade tanto nos exercícios de criação e interpretação de personagens, como através da apreciação de espetáculos e da leitura e análise de textos.

Natureza e sentido da arte-educação

As atividades educativas que envolvem a expressão artística, a dinâmica corporal e a experiência estética são a base para o educando organizar percepções, classificando e relacionando eventos, construindo, com todas as suas capacidades, um todo significativo.

Uma atenção do educador para o domínio afetivo do desenvolvimento, pode possibilitar ao estudante situar-se no processo educativo, de forma a constituir a sua própria filosofia de vida, a sua visão do universo, caracterizando-se. São atitudes e comportamentos que vão desde a percepção do que acontece no ambiente escolar, e a atenção seletiva, até a organização de um sistema de valores.

A educação do ser integral, para o exercício da cidadania, não deve, portanto, restringir os componentes de aprendizagem ao domínio cognitivo, ao desenvolvimento do intelecto. As técnicas e práticas corporais, as experiências de pensar com o corpo, presentes nos jogos e nos exercícios de improvisação das nossas oficinas de teatro são elementos para a vitalização e o equilíbrio do ser, de maneira articulada, em todos os níveis: físico, emocional, mental e espiritual.

O homem, que é entre os animais o único que possui a dimensão simbólica (a palavra), tem na linguagem o instrumento básico de ordenação e significação do mundo. O homem é o único ser que tem consciência de outras dimensões e outros tempos. A radical diferença entre o homem e os outros animais é a sua consciência reflexiva, simbólica.

O homem imprime sentido a suas ações, e à sua sobrevivência, o que não tem a ver só com a manutenção biológica da vida mas também com o significado do sentido da vida. O homem é capaz de construir valores, sonhos, ideais. Assim, compõe a sua vida exercendo as suas múltiplas capacidades: razão, sentimento, sensação e intuição. Com a supervalorização da razão, o homem compromete a sua evolução estética. E a evolução estética não se refere apenas à sua capacidade de fazer e apreciar arte, refere-se também a uma integração de todas as suas capacidades.

Além disso, o mecanismo de construção do conhecimento é um jogo dialético entre o que é sentido/vivido e o que é simbolizado. Garantir um lugar para a arte no processo educativo, partindo do que o educando já conhece e do que para ele é relevante, é um modo de ampliar as possibilidades de formação de um ser capaz de organizar percepções, classificando e relacionando eventos, construindo, com todas as suas capacidades, um todo significativo.

Uma atenção do educador para o domínio afetivo do desenvolvimento, pode possibilitar ao estudante situar-se no processo educativo, de forma a constituir a sua própria filosofia de vida, a sua visão do universo, caracterizando-se. São atitudes e comportamentos que vão desde a percepção do que acontece no ambiente escolar, e a atenção seletiva, até a organização de um sistema de valores.

Para a formação de sínteses, e seu entendimento, é preciso unir o componente estético das experiências sensoriais ao que o sujeito conhece (intelecto). O teatro-educação apresenta-se como meio privilegiado para se promover isso, na medida em que adota exercícios que praticamente fazem o sujeito pensar com o corpo, recorrendo a componentes de sua personalidade e articulando-os num trabalho criativo e de intenso grau de comunicação entre indivíduo e grupo e entre artista e público.

Dessa forma, uma educação que contemple os sentimentos, as sensações e a intuição, tanto quanto a razão, levando em conta o imaginário, os desejos e os sonhos dos educandos, uma educação que supere as tradicionais fronteiras estabelecidas entre as disciplinas, tem sido o caminho buscado por arte-educadores para a formação da cidadania, com a participação de todos os envolvidos como sujeitos da história.

A educação do ser integral deve visar, portanto, a vitalização e o equilíbrio do ser, de maneira articulada, em todos os níveis: físico, emocional, mental e espiritual. Desenvolvendo-se nos quatro níveis, de maneira articulada, buscando competências de ponta e dando um tratamento integrador aos conhecimentos construídos, o sujeito vai definindo e aperfeiçoando sua relação com o todo. Assim, ele se re-descobre como cidadão, redefine seu papel em cada instituição, em cada tribo a que está vinculado, situando-se na história como agente.

Diante do exposto, podemos dizer que coloca-se como desafio para os educadores, realizar um trabalho de conscientização (tomada de consciência mais ação) que desenvolva o senso estético de maneira associada ao senso crítico e à elevação da auto-estima, a partir da re-valorização das matrizes culturais de cada grupo social, para que o educando se constitua como sujeito político, capaz de compreender as relações estabelecidas na sociedade, questiona-las e perceber-se em condições de transforma-las.

A arte-educação, com base na metodologia triangular (história, apreciação, prática teatral) constitui-se, a nosso ver, um caminho para o aprendizado de um entendimento sintético. O grande desafio na formulação de novos paradigmas no campo da educação como um todo, é o de reintegrar os campos do conhecimento e rearticular o sentir e o saber, a análise, a emoção e a tradição, superando os limites do trabalho educativo baseado apenas no intelecto, na memória, no raciocínio lógico linear.

Todas essas capacidades mencionadas são importantes para o artista cênico, que vive cotidianamente o desafio de analisar textos, construir personagens, criar coletivamente espetáculos, e comunicar-se com o público.

A criação de uma proposta metodológica reunindo os elementos mencionados acima, na prática artística, e associando essa prática ao estudo da história da criação artística e à apreciação do espetáculo, visando a formação do jovem ator para a cidadania, constitui-se, num grande desafio para os que se dedicam atualmente ao Teatro-Educação.

Sugestões de Leitura / Bibliografia:

BARBOSA, Ana Mae. Arte-Educação: conflitos/acertos. SP: Max Limonad, 1985.
_______________. Teoria e Prática da Educação Artística. S.Paulo: Cultrix, 1990.
_______________. A imagem no ensino da arte. S. Paulo: Perspectiva, 1996.
_______________. Tópicos Utópicos. B. Horizonte: C/ Arte, 1998.
CABRAL, Beatriz (Org) Ensino do teatro: experiências interculturais. Florianópolis: Imprensa Universitária, 1999.
COURTNEY, Richard. Jogo, teatro e pensamento. SP : Perspectiva, 1980.
DOURADO, Paulo e MILET, Maria Eugênia. Manual de criatividades. Salvador; Funceb: EGB, 1997.
DUARTE Jr. , Por que arte-educação? . Campinas: Papirus, 1986.
__________. Fundamentos estéticos da Educação . Campinas: Papirus, 1988.
FUSARI, Maria R. e FERRAZ, Maria H. Metodologia do ensino de arte. S.Paulo: Cortez, 1993.
GIROUX, Henry. Escola crítica e política cultural. S. Paulo: Cortez, 1987.
GONÇALVES ALMEIDA, Fernanda. De olho na rua: O Axé integrando crianças em situação de risco. Salvador: EdUFBA, 2000.
HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 1998.
KOUDELA, Ingrid Dormien(Org).Um vôo brechtiano. S. Paulo: Perspectiva: Fapesp, 1992.
________________________. Jogos teatrais. S. Paulo: Perspectiva, 1984.
________________________. Teatro e Jogo. S. Paulo: Perspectiva, 1996.
LINHARES, Angela Maria B. O tortuoso e doce caminho da sensibilidade: um estudo sobre arte e educação. Ijuí, RS: Ed. Unijuí, 1999.
MELO, Liana. “Balé da cidadania. Experiências educacionais bem sucedidas usam a dança como instrumento de inclusão social”. Revista IstoÉ, n. 1632, 10/1/2001, pp 40-42.
MOREIRA, Antônio Flávio e SILVA, Tomaz Tadeu da (Orgs). Currículo, Cultura e Sociedade. S. Paulo: Cortez, 1999.
PACHECO, Elza Dias. (Org). Comunicação, Educação e Arte na cultura infanto-juvenil. S.Paulo: Loyola, 1991.
READ, Herbert. A educação pela arte. S. Paulo: Martins Fontes, 1982.
________. A redenção do robô: meu encontro com a educação através da arte. S. Paulo: Summus, 1986.
UNICEF, CEAO, FCM, P. AXÉ, FUNDAC, CRIA, MOC. Distintos olhares da cidadania. Salvador: Unicef, 1998.

PLANO DE TRABALHO Da Recepção à Expressão, um caminho possível

Ferdinando Taviani em artigo publicado em “A Arte Secreta do ator”, propõe: “Um corolário: para fazer bom teatro deve-se ter coisas interessantes a dizer e deve-se saber como fazê-las e ser compreendido” (BARBA, 1995, p. 256). A proposta deste plano de trabalho é fazer com que as “coisas interessantes” ditas sejam uma expressão da criação e da recepção de jovens que atuam no teatro baiano em instituições de ensino fomais e não-formais.
O plano de trabalho do bolsista Roberto Ives Abreu Schettini leva em consideração a articulação de dois elementos aparentemente distintos: recepção e expressão. Este diz respeito à produção da arte, aquele se refere à apreciação da arte. Esses elementos são ao menos aparentemente distintos, porque é possível, refletir sobre a criação do artista observando que sua inventividade está intimamente ligada a suas experiências e apreensões que faz do mundo, e, por que não, de outras obras de arte. Neste aspecto o esquema recepção para expressão, constitui um sistema para a produção da arte.
O objetivo deste plano de trabalho dentro do projeto era fomentar a criação que partisse da recepção. Dois tipos de produtos eram esperados: produção de encenação e produção de textos dramáticos. Tudo a partir da aplicação do Método da Análise Ativa. O importante em campo seria fomentar que a partir da recepção afetiva da arte, o educando fosse capaz de criar obras de arte experimentando a livre fluência como meio de expressão.
Como resultados alcançados neste plano de trabalho, aqui estão representadas as sistematizações e reflexões acerca desta criação artística que encontra na recepção o ponto de partida para a expressividade, conectando este processo de criação com o desenvolvimento do domínio afetivo dos sujeitos em questão.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

RELATÓRIO PARCIAL DAS ATIVIDADES REALIZADAS NO COLÉGIO MANOEL NOVAES NA PRIMEIRA INTERVENÇÃO DA PESQUISA EM CAMPO

PIBIC 2005 / 2006
Iniciação Científica
Orientação: Dr. Sérgio Farias
Roberto de Abreu
30 de outubro de 2005


RELATÓRIO PARCIAL DAS ATIVIDADES REALIZADAS NO COLÉGIO MANOEL NOVAES NA PRIMEIRA INTERVENÇÃO DA PESQUISA EM CAMPO

As atividades do projeto de iniciação científica 2005 – 2006, sob orientação do Dr. Sérgio Farias, começaram, como havia sido previsto pelo cronograma, com as leituras acerca dos conhecimentos que vão gerir o foco dado no desenvolvimento da investigação em campo: A identificação do subtexto.
As referências principais são: Stanislavski, estudioso da arte teatral, encenador, e pedagogo, idealizador de uma poética na interpretação que conseguisse arrebatar o ator, e por conseguinte o público, sob a luz da emoção conseguida através do minucioso estudo da partitura dramática; e Eugênio Kusnet, ator russo e autor do livro “Ator e Método”, importante na difusão-aplicação e sistematização dos ideais “stanislavskianos” no Brasil.
Feitas as leituras, o grupo de pesquisa se reuniu para discutir a importância do projeto e o material que havia sido lido. Entre outras questões abordadas pudemos esclarecer princípios que podem nos remeter à ligação que pretendemos fazer dos resultados deste projeto com a área de teatro-educação. Discutimos que, se partirmos do pressuposto de que toda informação é um texto e todo texto, antes de elaborado, tem uma motivação para a sua elaboração, fica claro o quanto é importante para o cidadão, homem, consciente e preocupado com os caminhos do desenvolvimento social, saber identificar estas motivações que são geradoras deste mundo-texto. Nenhuma mensagem é ingênua. Toda comunicação, se estabelece uma ligação entre um emissor e um receptor, tem uma motivação, um subtexto. E se partimos para a sala de aula para discutir e instrumentalizar os educandos na busca dos subtextos de nossa dramaturgia, estaremos não só instrumentalizando o estudante de teatro para o teatro, mas sim para a vida.
Em campo fomos recebidos com muita hospitalidade pelo colégio Manoel Novaes. O contato foi estabelecido através da professora Andréa, que coordena as oficinas de teatro realizadas no espaço. Como ela está de licença para realizar os estudos do mestrado, fizemos o acordo de assumir o grupo da manhã, o qual ela não pode assessorar, até o fim do ano letivo. À nossa disposição uma sala e uma pequena biblioteca do grupo. Grupo composto por 14 jovens que estudam no turno vespertino e freqüentam a oficina no turno matutino. Concluídas as negociações fomos a campo.
O primeiro encontro com aspecto de primeiro encontro. Neste primeiro contato aproveitamos o espaço para apresentar o projeto de pesquisa e a equipe de pesquisadores. Numa grande troca, foi aplicado um jogo dramático para que pudéssemos nos conhecer melhor, neste jogo os estudantes cantaram, falaram algumas histórias de suas vidas com teatro e família, declamaram poesias, entre outras coisas. Para finalizar lemos um texto, um conto. O jogo consistia em cada um ler um parágrafo do conto, e terminada a leitura cada um devia reproduzir uma parte da história até que o enredo tivesse sido contado por completo por todos juntos (análise ativa).
A partir deste dia, começamos os encontros ordinários às segundas e sextas das 10 horas da manhã às 12 horas. Em duas horas de atividade, o resultado é pequeno ainda, mas sentimos a necessidade de manter o tempo de duração, ao menos inicialmente, para que fosse criada uma familiaridade com o grupo, que já não tem 14 integrantes desde a primeira reunião e sim 7 membros. Enquanto isso, íamos definindo o texto que iríamos trabalhar com o grupo na aplicação da metodologia para o estudo do texto no teatro, que desenvolvemos no projeto anterior, e chegamos finalmente a um texto de Millôr Fernandes, que se chama “A história é uma istória – e o homem é o único animal que ri”.
Entramos numa grande dialética para escolher o texto que seria estudado, mas foi consenso que ele deveria atender as seguintes expectativas: atualidade quanto à temática abordada, escrito por um autor nacional, proximidade com a linguagem dos educandos e potencialidade para identificação dos subtextos. O texto escolhido, para nossa satisfação atendia à todas as necessidades.
“A história é uma istória (...)” é uma comédia que conta como se aprende mal a história mundial. Desmistifica várias curiosidades e sensos-comuns formados ao logo da história e assume uma postura humana diante da construção de personalidades históricas que se tornaram cânones nos ditames de valores para a sociedade.
Durante a escolha do texto a equipe de pesquisa ofereceu um módulo de oficinas onde foram incluídas diversas atividades de preparação do ator que envolviam desde exercícios de práticas da expressividade corporal até estudos de mesa e aplicação de análises ativas de micro-textos. Depois da escolha começamos a oferecer material didático para subsidiar o entendimento do texto de Millôr, este material se propunha a questionar e avaliar a história com um olhar menos crítico que o olhar do dramaturgo.
Agora estamos desenvolvendo o primeiro passo da Metodologia: leitura individual do texto, onde os educandos, de posse do texto, fazem a leitura do mesmo em casa.
Nossa avaliação é de que o grupo está realmente contribuindo e progredindo com as atividades. O próximo passo é aumentar a quantidade de registros das atividades para posterior análise. Vamos gravar áudio das discussões sobre o texto na identificação das mensagens subliminares, fazer entrevistas com roteiros semi estruturados, e no fim do ano letivo uma avaliação geral com todos. Pretendemos conseguir completar o ciclo da metodologia com o tempo que nos resta, que é pouco, mas ainda que não consigamos chegar na encenação, já teremos um bom material para avaliar os impactos da instrumentalização destes estudantes na análise crítica e interpretação de textos.

EQUIPE:
Roberto, Flávia e Juliane