quinta-feira, 29 de julho de 2010

Identificação Cultural na prática educativa com Teatro

Sergio Coelho Borges Farias

Universidade Federal da Bahia

scbfar@ufba.br

Uma vez no teatro, experimentando emoções e o prazer estético, o publico é comparsa de uma aventura que reúne diversos elementos artísticos, uma aventura que acontece somente ali, tem a duração do espetáculo e jamais será reproduzida.

A presença do artista naquele instante e a impossibilidade de se repetir mecanicamente o ato, compõem o fascínio que o teatro exerce há milênios e que a larga utilização de recursos eletrônicos na comunicação de massa, como a do video, por exemplo, não consegue apagar. Por maior que seja a quantidade de signos de que se utilize o ator, nunca deixaremos de ver nele um ser vivo.

Além disso, o espectador sabe que, no teatro, além da diversão, ele também encontra informações que poderão fazê-lo crescer culturalmente. O teatro ainda tem a fama de ser uma casa do saber, um guardião do patrimônio artístico de várias culturas. Esse fascínio exercido pelo teatro contribui para que ele possa ser também um instrumento eficaz de educação (inclusive política), sem deixar de proporcionar o “autêntico prazer estético”.

Além de aparecer como elemento artístico e como meio de expressão em si mesma, a teatralidade aparece ao longo da história como recurso instrumental para afirmação de ideologia, disseminação de valores morais e fundamentos religiosos, promoção de figuras políticas, contestação de Regimes, e até como componente de método terapêutico.

Mas a produtividade do teatro inclui também o ato de conhecer e de se emocionar. O riso, o choro, o susto, o enlevo, marcam o processo de identificação cultural que resulta da relação entre ator e espectador, mediados pelo encenador, de preferência em sintonia com a totalidade histórica.

Nesse processo, o espectador é também um criador, um fazedor de cultura. É isso que fundamenta o caráter educativo do teatro, independente do conteúdo abordado. A mensagem veiculada pelos atores através das palavras, movimentos e recursos técnicos, é decodificada pelo espectador com base em sua história de vida, sua visão de mundo e seu estado emocional naquele momento. Cada espectador elabora seu próprio e particular espetáculo.

Esse cuidado com o resultado da ação teatral junto ao espectador é uma preocupação que deve estar sempre presente entre os artistas que desenvolvem experiências de arte-educação. A análise da recepção da obra de arte (espetáculo) pelo educando, é fundamental para se firmar o teatro-educação como forma de ensino que transpõe as barreiras da sala de aula, e para se compor uma metodologia dinâmica e socializadora.

A atitude de sair dos muros da escola através da mobilização de estudantes para assistirem espetáculos no teatro, bem como a apresentação de trabalhos teatrais nas escolas, deve ser articulada com o próprio fazer teatral, com a prática artística das oficinas.

A arte proporciona à humanidade a construção de um outro saber, que não é estritamente intelectual e que se refere à interioridade de cada ser.

Entre os anos vinte e quarenta do Século XX, as idéias de Lowenfeld no campo internacional e de Augusto Rodrigues no campo nacional, deram base às experiências de Arte-Educação, com ênfase na livre expressão, influência de Movimentos como o Modernismo, e resposta ao excesso de rigidez no ensino de arte da época.

A partir da década de sessenta os educadores procuraram superar o esvaziamento de conteúdo no ensino de arte provocado pelo laissez-faire. Um verdadeiro movimento de Arte-Educação se firma na década de setenta, disseminando experiências as mais diversas por todo o Brasil. As experiências indicam, como percurso possível e desejável, a articulação entre a arte, a apreciação da obra de arte e o conhecimento da história do fazer artístico e do contexto em que a arte é produzida.

A consideração da arte como forma de conhecimento, não como mero recurso auxiliar de matérias de maior prestígio, aponta para o cuidado com a invenção, a inovação e a comunicação de idéias, no curso do próprio processo educativo.

Para se realizar uma educação criadora que leve à experiência estética a ao exercício de reflexão e da crítica, é preciso desenvolver ações que estimulem também a capacidade de análise e síntese. E isso pode se dar através das múltiplas abordagens metodológicas da apreciação artística, associada ao fazer artístico.

A arte como conteúdo, na Escola, deve ser vivida como uma forma específica (diferente, daquela que trabalha a palavra, por exemplo) para interpretar e recriar o mundo, recompor permanentemente a realidade e desvelar o imaginário.

Recepção e Apreciação

Assim como as matérias de maior prestígio, a Arte tem uma história, e um domínio. Constitui-se numa área de estudos específicos. Nessa área, a Arte-Educação coloca-se como campo epistemológico, incluindo as investigações sobre os modos de se aprender arte, dentro e fora das escolas.

Verifica-se que, nas escolas, raramente o aluno é colocado em relação com obras de arte para que desenvolva sua capacidade de apreciação crítica e sensível. O ensino de arte, quando existe, é centrado em aulas expositivas ou em leitura de textos teóricos, chegando, algumas vezes, ao fazer artístico com características de instrumento de liberação e socialização.

A carga horária semanal, de uma ou duas horas, e as salas repletas com até 50 alunos, tornam a Educação Artística nas escolas algo próximo do non-sense, algo como uma piada de mau gosto. A criação de Oficinas, em turno complementar àquele em que o aluno cursa as demais matérias, aparece como alternativa para se realizar um trabalho de sensibilização ou de formação artística mais consistente.

Vemo-nos colocados diante do desafio de, atuando com professores de outras disciplinas, inserir nos currículos a apreciação da obra-de-arte (no caso, o espetáculo teatral), no sentido de firmar o teatro-educação como forma de ensino que transpõe as barreiras da sala-de-aula e propõe uma metodologia dinâmica e socializadora.

Desenvolver sensibilidade e criatividade através da compreensão da arte é uma das características da Arte-Educação, que também leva à formação de conceitos e ao desenvolvimento da habilidade motora.

Para alguns professores, arte significa intuição, emoção, espontaneidade. Eles acabam difundindo a idéia de que arte-educadores não precisam pensar, refletir, questionar. Para eles “arte é só fazer” descuidando da observação e compreensão da obra.

A metodologia a ser utilizada para a leitura de uma obra de arte pode variar de acordo com o conhecimento já adquirido pelo professor, assumindo caráter estético, semiológico, iconológico, etc. Entretanto, é preciso cuidado para não se restringir a leitura de uma obra de arte ao ato de responder a um questionário, o que fatalmente significa a condensação de significados da obra e limita a imaginação do aluno.

Com a leitura da obra produzida por outro artista, buscamos preparar o aluno para também ler as imagens, sons e ações que o cercam no dia a dia. A idéia é criar com os alunos uma metalinguagem da ação observada, é levá-los a falar o espetáculo num outro discurso, que pode ser silencioso, gráfico, ou até mesmo verbal-analítico ou sintético.

A educação estética, parte integrante da vivência em arte, diretamente ligada à educação intelectual, deve contribuir para o desenvolvimento do interesse cognoscitivo do aluno, e de sua percepção e capacidade de observação.

Nas articulações do processo artístico, os espectadores (assim como os produtores/artistas) são pessoas situadas num mesmo tempo/espaço sociocultural, que se relacionam com produtos artísticos, com artistas, com a arte, em diferentes modos de saber estético e artístico, culturalmente apreendidos e constituídos como co-autorias vivas.

O conceito de fazer arte está, sem dúvida, baseado na construção. É esse processo de construção, ao mesmo tempo cognitivo e emocional, mediado pelas matrizes culturais formadoras do ser criativo, que resulta no que chamamos de identificação cultural.

Articulando-se a tradição e a memória cultural, a história de vida e a visão de mundo do sujeito, com os elementos da contemporaneidade que permeiam nosso cotidiano, na arte-educação, podemos formatar um processo educativo voltado para a afirmação da cidadania.

Portanto, para a construção da identificação cultural, é preciso considerar que o espectador não é mero receptor de informações e mensagens, mas figura viva dentro de todo processo interativo, como é o teatro.

FIM

Cultura e Cidades

IV Ciclo de Debates sobre Políticas Culturais

Mesa-Redonda sobre Cultura e Cidades

Conselho Estadual de Cultura

Salvador, 13/8/2008

No que se refere ao tema dessa mesa, desejo tentar refletir sobre o que é que nós queremos em relação ao cidadão comum, no campo da cultura, para que possamos então identificar elementos para uma política, para um debate sobre a questão cultural, que leve em conta o que se espera realmente do cidadão. Eu chamo de cidadãos comuns todos nós, todas as pessoas que estão nas cidades, nos territórios de cultura.

O que eu proponho é que não se considere cultura a mera apreciação, o mero consumo de produtos artísticos, ou de manifestações tradicionais, mas que seja algo que seja construído no dia a dia e que inclua também o modo de ser e modo de viver.

Então o que a gente esperaria em termos de modo de ser, modo de viver das pessoas? Algo no sentido de intensificar ou reforçar atitudes referentes à cooperação, à fraternidade, à felicidade de modo geral. Algo que supere as questões referentes à violência, competitividade, egoísmo etc.

Portanto, é preciso todo um trabalho em relação aos valores que devem ser ressaltados para se chegar a uma situação de Cultura, na qual esse cidadão, essa pessoa, possa viver de um modo fraterno, cooperativo, no sentido de aumentar o grau de felicidade das pessoas de um modo geral, de pensar no coletivo. E isso se aprende.

Cabe então colocar aqui como questão a relação entre cultura e educação. Se isso se aprende, é preciso então fazermos cultura como se estivéssemos fazendo educação. Como se situa essa pessoa, esse cidadão comum, em relação a tudo que vem acontecendo em termos de políticas públicas para essa população?

Para o desenvolvimento desses valores mencionados acima, considerando que o trabalho cultural seja um trabalho educacional, precisamos não concentrar o trabalho cultural somente nos campos do pensamento, do raciocínio e da lógica, mas trabalhar também na direção do desenvolvimento das demais capacidades humanas, que são, em geral, esquecidas pelas políticas públicas de um modo geral e pela política educacional especialmente. São as sensações, os sentimentos e a intuição. O trabalho educacional em geral é concentrado no pensamento, no domínio cognitivo, o que dificulta o trabalho com esses outros domínios.

É preciso contemplar o domínio psicomotor, que envolve a dinâmica do corpo de um modo geral, não somente a pessoa sentada na cadeira, raciocinando, ouvindo, escrevendo, discutindo, mas ela fazendo alguma coisa.

O trabalho com a cultura, com a arte, mas a arte pensada em termos de componente dessa cultura, que é algo mais amplo do que somente o fazer artístico, é também fundamental no domínio afetivo, no qual se formam e se consolidam as visões de mundo.

Então, uma educação que esteja estruturada de modo a promover o desenvolvimento integral do ser, que seria esse desenvolvimento que possibilitaria uma atuação cultural mais conseqüente do cidadão comum, será um fazer cultura, não somente um consumir cultura como muitas vezes é encarado o trabalho cultural, quando se leva a cultura para o povo.

É importante apresentar coisas para as pessoas assimilarem e assistirem, mas, o trabalho precisa ser feito no sentido de integrar a teoria com a prática, quer dizer, o pensar com o fazer, quer dizer, pensar fazendo e fazendo para pensar. O trabalho cultural, portanto, precisa ser feito numa perspectiva educacional que leve ao desenvolvimento integral do ser, contemplando essas outras capacidades não somente a capacidade intelectiva, do raciocínio, da lógica, da memória.

Então, o trabalho cultural que leva ao desenvolvimento dessas capacidades é exatamente um trabalho que possibilita a articulação do fazer com o apreciar e com o contextualizar, que são os três elementos fundamentais do campo da arte educação. A relação da arte com a educação, nessa perspectiva do desenvolvimento cultural, do desenvolvimento do ser integral, do cidadão comum que está na cidade, é uma ação que está baseada nesses três elementos fundamentais, no fazer articulado com o apreciar, articulado com o domínio cognitivo, ou o contextualizar articulado com o refletir sobre a história daquele fazer, sobre os elementos contextuais que estão envolvidos nessa realização, para que daí resulte um novo tipo de comportamento que eu acredito que seja o comportamento que a gente espera, em termos culturais, das pessoas.

Espera-se um comportamento que seja propositivo, que contenha uma ação concreta de transformação, que não seja somente um estar vendo ou refletindo sobre, sem realizar nada. Então é algo que envolva o fazer e o refletir sobre o fazer, para o aperfeiçoamento desse fazer.

Nesse sentido, a política cultural, ao meu ver, deveria pensar mais nessa articulação com a educação no sentido de valorizar todas as organizações que existem. A escola é uma organização muito forte, mas não podemos nos limitar a ela em termos educacionais Há também associações, grupos culturais, pontos de cultura. Deve-se possibilitar a esses organismos, que permeiam todos os locais da cidade, a realização desse trabalho educacional na perspectiva do desenvolvimento cultural, do aperfeiçoamento dos valores que entendemos serem importantes de se realizar, de se concretizar.

Finalmente, permitam-me identificar três pontos fundamentais numa possível política de apoio a essas organizações, no sentido do desenvolvimento de uma proposta de realização cultural. Um deles é a questão do espaço físico, da possibilidade dos espaços serem disponibilizados para os grupos que possam realizar trabalhos culturais. O segundo ponto seria em termos de disponibilizar equipamentos para a realização desses trabalhos e o terceiro ponto seria o amplo acesso aos produtos culturais já existentes, o que possibilitaria a apreciação da obra cultural, o acesso ao que já vem sendo feito e já vem sendo proporcionado pela sociedade.

Penso que essa articulação da política cultural com a educação precisaria levar em conta não só a estrutura educacional oficial, a da rede escolar, mas também toda uma rede comunitária que existe, é efetiva, onde já são promovidas muitas atividades.

É importante que nesses ambientes o trabalho educacional seja feito na perspectiva do desenvolvimento cultural, melhor dizendo, do aperfeiçoamento do comportamento cultural. Essa seria a formulação mais correta, a meu ver, na qual se levasse em conta não só a arte contemporânea, mas também as questões da tradição e as questões das chamadas artes do convívio, que são as festas, os encontros, as relações informais.

Nessas instâncias pode se realizar um trabalho educacional na perspectiva de uma cultura mais orgânica, que leve a uma mudança, a um aperfeiçoamento dos valores aprendidos, no sentido do bem coletivo.

Sérgio Farias

Professor do Instituto de Humanidades, Artes e Ciências da UFBA

Contexto e campo de atuação do profissional de teatro na educação

Sergio Farias

Universidade Federal da Bahia

SESC, Recife, 5 de novembro de 2008

A Pedagogia do Teatro é a atividade e a respectiva teorização sobre:

- a formação de artistas da cena,

- a formação de licenciados em Teatro

- a formação integral do ser, através da realização do teatro em ambientes educacionais.

- a ação e educação do espectador

- os elementos de teatralidade na atuação do educador

Ação e educação do espectador (Flávio Desgranges):

O teatro propõe uma reflexão analítica a ser elaborada pelo espectador a partir de uma disjunção estética, ao invés de uma reflexão conclusiva, a partir de uma síntese.

O artista trabalha recortando e definindo as frações de vida sobre as quais irá se debruçar, mas os pedaços recortados não formam necessariamente um todo orgânico; a relatividade ganhou o cotidiano e os pontos de vista possíveis estão multiplicados;

A arte constitui-se de um hibridismo desconexo, calcado na justaposição de elementos que não se harmonizam, ou então em partes que soam desnecessárias ao todo funcional da obra; isso tudo vai propor uma atitude criativa ao interlocutor para conceber a obra explodida.

A arte da contemporaneidade propõe leituras plurais, dissensuais. A compreensão estará mais vinculada às leituras singularizadas de mundo, já que não há uma visão de mundo consensual proposta na obra. O que antes era compreendido por unicidade agora o é por diferenciação, em vez de relacionar a parte, o fragmento, com o todo, o espectador relaciona as partes entre si, pedaços que não se encaixam e não compõem necessariamente uma totalidade.

Elementos de teatralidade na atuação do educador (Solange Miguel):

A aula (qualquer situação de ensinação) como experiência cênica. A configuração do papel social (educador) como composição de personagem.

As capacidades humanas que o aprendizado de teatro desenvolve:

pensamento, sensação, sentimento, intuição.

As taxonomias para os diversos domínios da aprendizagem:

cognitivo, psicomotor, afetivo, estético.

A transdisciplinaridade envolvendo as áreas do conhecimento e os campos do saber:

filosofia, ciência, religiosidade e arte.

AS TAXONOMIAS DOS PROCESSOS DE APRENDIZAGEM:

Domínio Cognitivo (pensamento): Conhecimento, Compreensão, Aplicação, Análise, Síntese, Avaliação;

Domínio Psicomotor (sensação): Percepção, Posicionamento, Execução acompanhada, Mecanização, Completo domínio de movimentos;

Domínio Afetivo (sentimento); Receptividade, Resposta, Valoração, Organização de um sistema de valores, Caracterização;

Domínio Estético (intuição); Toque, Imaginação, Transcendência (Êxtase), Apreciação, Incorporação.

O CAMPO PROFISSIONAL

Ingrid Koudela sistematizou o que o Wörterbuch der Theatre Pädagogik apresenta como sendo os campos de atuação do profissional da Pedagogia do Teatro:

1 – Junto a grupos profissionais de teatro: preparação e acompanhamento de atividades posteriores à visita ao teatro. Acompanhamento de grupos de jovens que encenam em colaboração com grupos de teatro;

2 – Na Educação Infantil, Ensino Fundamental e Médio: pedagogia do jogo, expressividade, socialização, atividade integrante da moldura curricular ou através de projetos; sistemas de aprendizagem com teatro nas diversas disciplinas; teatro na formação de adultos, através de projetos ou na formação continuada;

3 – Nos Cursos superiores de formação do licenciado (e dos profissionais da cena, bacharéis) em teatro e pesquisa na respectiva área;

4 – Em organizações extracurriculares: ONGs, centros culturais, museus; atividades de caráter experimental;

5 – No lazer: projetos de jogo e teatro com crianças e jovens; animação também de adultos em centros de férias; teatro amador;

6 – Em Projetos de integração, prevenção e socialização, de organizações comunitárias e religiosas;

7 – em contextos terapêuticos e de saúde: hospitais, centros de reabilitação e psiquiátricos; saúde física ou psicológica;

8 – No contexto empresarial, para treinamento de lideranças, melhoria da comunicação e da auto-estima ou para preparação em processos complexos de transformação na empresa.

A FORMAÇÃO BÁSICA DO LICENCIADO EM TEATRO

Fundamentos da Comunicação e do Espetáculo, Estética, Jogos, Corpo, Voz, Improvisação, Interpretação, Direção Teatral, Dramaturgia, Literatura Dramática, Tradição e Cultura Popular, Dança, Artes Visuais, Música, Clown, História do Teatro, Cenografia, Indumentária, Maquiagem, Iluminação, Teatro de Animação, Produção Teatral, Fundamentos da Educação, Arte-Educação, Didática e Metodologia do Ensino de Teatro, outras matérias de livre escolha.

A PRÁTICA TEATRAL A E FORMAÇÃO DO ARTISTA DA CENA

Cabe destacar que todos os grandes teóricos do teatro tiveram suas escolas instaladas no bojo de seu trabalho criativo de grupo; os integrantes das companhias de teatro passavam de aprendizes iniciantes a instrutores e em seguida a mestres ou “discípulos”, adotando a máxima do aprender fazendo.

Principais desafios para o pedagogo do teatro na contemporaneidade:

- elevação da auto-estima frente à desvalorização da profissão docente

- superação da falta de espaço e de materiais apropriados para o exercício docente

- convencimento dos envolvidos acerca da importância da arte na educação

- conquista de espaço para a arte nos currículos

- utilização de tecnologias nos processos educativos

- reflexão sobre o valor e o papel da arte no mercado

- o sistema de inclusão e aprovação em massa e suas conseqüências na qualidade da educação;

- dinâmica da língua portuguesa permeada pela linguagem praticada no cotidiano

- prática da interculturalidade e do multiculturalismo: as tribos, as identidades e as identificações (Maffesoli);

- prática da Pedagogia da Imaginação: leveza, rapidez, exatidão, visibilidade, multiplicidade e consistência (Calvino);

- habilidades para os novos tempos: pensamento crítico, conectar idéias, aprender sozinho, conviver com pessoas diferentes, estabelecer metas e fazer escolhas, ter visão globalizada (Ana Aranha, Revista Época, abril 2007)

- aperfeiçoamento da sua própria formação



BIBLIOGRAFIA

ARMANDO, Solange-Miguel Marcondes. Ensinação-Encenação: laboratório para a (des)construção da personagem de professor. Salvador: Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas da UFBA, 2007 (Dissertação de Mestrado).

CALVINO, Ítalo. Seis propostas para o próximo milênio. S. Paulo: Companhia das Letras, 1990.

DESGRANGES, Flávio. Pedagogia do Teatro: provocação e dialogismo. S. Paulo: HUCITEC, 2006.

___________________. A pedagogia do espectador. S. Paulo: HUCITEC, 2003.

KOUDELA, Ingrid. Pedagogia do teatro. Congresso de Pesquisa e Pós-Graduação em Artes Cênicas. Anais. Memória ABRACE X. Org. Maria de Lourdes Rabetti. Rio de Janeiro: 7Letras, 2006, p. 124-125.

MAFFESOLI, Michel. O tempo das tribos. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2006.

PUPO, Maria Lúcia. O lúdico e a construção do sentido. Sala Preta. S. Paulo: Departamento de Artes Cênicas, ECA-USP, junho de 2001, p.181-187.

WEIL, Pierre. Holística: uma nova visão e abordagem do real. S. Paulo: Palas Athena, 1990.

A ARTE E A FORMAÇÃO DE UM TODO SIGNIFICATIVO

Sérgio Coelho Borges Farias

Professor Titular, UFBA


Resumo

As referências ao papel desempenhado pelas atividades que envolvem a expressão artística, a dinâmica corporal e a experiência estética presentes nos currículos são a base para uma composição teórica sobre a possibilidade do ser humano organizar percepções, classificando e relacionando eventos, construindo, com todas as suas capacidades , um todo significativo. Uma atenção do educador para o domínio afetivo do desenvolvimento, pode possibilitar ao estudante situar-se no processo educativo, de forma a constituir a sua própria filosofia de vida, a sua visão do universo , caracterizando-se. São atitudes e comportamentos que vão desde a percepção do que acontece no ambiente escolar, e a atenção seletiva ,até a organização de um sistema de valores. Para a educação do ser integral não se deve, portanto, restringir os componente curriculares ao domínio cognitivo, ao desenvolvimento do intelecto, visando a vitalização e o equilíbrio do ser, de maneira articulada, em todos os níveis: físico, emocional, mental e espiritual.


No ambiente educacional é comum a referência às diferenças entre as aulas de arte e as aulas “mais sérias”. À medida em que o aluno vai avançando nas séries, a escola vai gradativamente retirando dos programas o aspecto lúdico que poderia estar sempre presente no processo educativo. Com isso, as atividades que envolvem a expressão artística, a dinâmica corporal e até mesmo a experiência estética vão tomando os últimos lugares na escala de prioridades dentro dos currículos.

As atividades de artes, sejam na forma de disciplinas ou de oficinas opcionais, estão geralmente entre as outras, as que não integram o rol das matérias úteis. Na raiz dessa separação está a dicotomização dos processos de construção do conhecimento, que colocam o raciocínio e a intelecção em oposição aos sentimentos e emoções.

De certa maneira, ainda que de forma restrita e limitada, a arte já integra a educação formal, inclusive já a integrou no passado, seja através de aulas de desenho, de canto orfeônico ou de trabalhos manuais. Na década de quarenta, por exemplo, entrou em pauta a educação através da arte, que tem por base a presença da arte na educação para o desenvolvimento da sensibilidade e para a educação dos sentimentos.

O homem, que é entre os animais o único que possui a dimensão simbólica (a palavra), tem na linguagem o instrumento básico de ordenação e significação do mundo. O homem é o único ser que tem consciência de outras dimensões e outros tempos. A radical diferença entre o homem e os outros animais é a sua consciência reflexiva, simbólica.

O homem imprime sentido a suas ações, e à sua sobrevivência, o que não tem a ver só com a manutenção biológica da vida mas também com o significado do sentido da vida. O homem é capaz de construir valores, sonhos, ideais. Assim, compõe a sua vida exercendo as suas múltiplas capacidades: razão, sentimento, sensação e intuição.

A Escola, retirando praticamente dos seus programas as atividades lúdicas, entre elas as artísticas, descuida da educação estética, privilegia a razão e limita o ato de construção do conhecimento a uma racionalização intelectualista. O homem , na Escola, deixa de lançar mão de suas outras capacidades ao desenvolver o seu domínio da linguagem, ao realizar experiências, nomeando-as e comparando-as com outras vivências anteriores. Dessa forma, com a supervalorização da razão, compromete a sua evolução estética. E a evolução estética não se refere apenas à arte. Refere-se basicamente a uma integração do pensamento, do sentimento, da percepção e da intuição.

Entretanto, o mecanismo de construção do conhecimento é um jogo dialético entre o que é sentido/vivido e o que é simbolizado. Garantir um lugar para a arte no processo educativo, partindo do que o educando já conhece e do que para ele é relevante, é um modo de ampliar as possibilidades de formação de um ser capaz de organizar percepções, classificando e relacionando eventos, construindo, com todas as suas capacidades , um todo significativo.

Dessa forma, uma educação que contempla os sentimentos, as sensações e a intuição, tanto quanto a razão , levando em conta o imaginário, os desejos e os sonhos dos educandos, uma educação que supere as tradicionais fronteiras estabelecidas entre as disciplinas, é o caminho, possível, criado pelos arte-educadores para a formação da cidadania, com a participação de todos os envolvidos como sujeitos da história.

Uma atenção do educador para o domínio afetivo do desenvolvimento, pode possibilitar ao estudante situar-se no processo educativo, de forma a constituir a sua própria filosofia de vida, a sua visão do universo , caracterizando-se. São atitudes e comportamentos que vão desde a percepção do que acontece no ambiente escolar, e a atenção seletiva ,até a organização de um sistema de valores.

A educação do ser integral não pode, portanto, se restringir ao domínio cognitivo, não pode se limitar ao desenvolvimento do intelecto. Deve visar a vitalização e o equilíbrio do ser, de maneira articulada, em todos os níveis: físico, emocional, mental e espiritual.

No nível físico, é fundamental a consciência do que resulta ou não resulta em bem-estar. Nesse nível, cuida-se também da produtividade . Procura-se desenvolver aptidões e capacidades de agir corporalmente, transformando o ambiente, para a produção de coisas úteis. Nesse processo, é importante manter o equilíbrio dos elementos da natureza, devendo o homem evitar agredir os outros seres. A movimentação corporal em forma estética, como a dança, ou de cultura física, como a ginástica e os esportes, deve fazer parte de uma educação integral, holística. Infelizmente, até mesmo em algumas áreas da arte-educação, as atividades corporais são praticamente esquecidas.

No nível emocional trabalha-se os sentimentos, no intuito de se garantir a motivação e o entusiasmo para a vivência criativa. Os exercícios de sensibilização promovem o auto-conhecimento e fortalecem as bases emocionais necessárias à interação social. A arte-educação promove a experiência estética, criando um campo para o exercício das emoções, sejam elas as primárias, como amor, raiva, alegria, tristeza, nojo ou medo, ou as derivadas (resultantes de combinações dessas seis emoções primárias), como a piedade, a vergonha, a saudade, entre outras.

No nível mental residem a imaginação, a criatividade, os conteúdos lógicos e objetivos, e até a antevisão de resultados. Todos esses elementos são fundamentais no processo de construção do conhecimento, especialmente do conhecimento científico. No processo de criação artística, o nível mental também se faz presente, desempenhando importante papel, pois, quando se cria, costuma-se também pensar no para que se está criando. A obra de arte tem papel de mediação nos atos comunicativos em sociedade, e mesmo que não possua um significado em si (evita-se explicar ou traduzir uma obra de arte) ela produz significados a partir da interação de saberes quando é exposta, quando é colocada num meio público, social, ou mesmo quando é vista/percebida/apreciada por um indivíduo momentaneamente isolado. Isso acontece quando, através dos diversos mecanismos de percepção, o indivíduo (receptor e agente de produção de conhecimento) estimula, de maneira articulada, sua memória e sua imaginação para produzir significados e elaborar conceitos.

O chamado nível espiritual vai sendo composto e aperfeiçoado ao longo de toda a vida e é visto, por vezes, como um campo insondável, inexplicável, divino, sobrenatural ou surreal. Seja qual for a sua nomeação, trata-se de um nível que é em geral afastado ou esquecido, na educação, quem sabe por ser mais centrado nos sentimentos e na intuição, e acaba ficando para ser cultivado pelos grupamentos religiosos. Comumente, nos sistemas educativos, busca-se a explicação dos fatos, das ações ,e até das manifestações de natureza emocional e das expressões artísticas.

Desenvolvendo-se nos quatro níveis, de maneira articulada, buscando competências de ponta e dando um tratamento integrador aos conhecimentos construídos, o sujeito vai definindo e aperfeiçoando sua relação com o todo. Assim, (re)descobre seu papel em cada instituição, em cada tribo a que está vinculado. Em sintonia com seu tempo, apontando alternativas que engrandescem seu ser, o sujeito se faz na história, como agente e, assim, educa-se, e torna-se feliz.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BARBOSA, Ana Mae. Tópicos Utópicos. B. Horizonte: C/ Arte, 1998.
CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano. Artes de Fazer. Petrópolis: Vozes, 1994.
DAMASIO, Antônio. O erro de Descartes. S. Paulo: Cia. Das Letras, 1996.
DUARTE JUNIOR, João-Francisco. Fundamentos Estéticos da Educação. Campinas: Papirus, 1988.
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EHRENFRIED, L. Da educação do corpo ao equilíbrio do espírito. S. Paulo: Summus, 1991.
MAFFESOLI, Michel. A contemplação do mundo. P. Alegre: Artes e Ofícios: 1995.
READ, Herbert. A educação pela arte. São Paulo: Martins Fontes, 1982.
SCHILLER, Friedrich. A educação estética do homem, numa série de cartas. S. Paulo: Iluminuras, 1990.