Este blog é destinado a apresentar resultados de pesquisas de Sérgio Coelho Borges Farias, Professor titular do Institudo de Humanidades, Artes e Ciências da Universidade Federal da Bahia.
Reflexão sobre os componentes curriculares que devem compor a formação do educador, no sentido de colocá-lo em sintonia com o ritmo da sociedade contemporânea, na condição de agente promotor de conhecimentos, habilidades e atitudes. Trata-se de uma proposta de bases curriculares que contemplem elementos ligados à sensibilidade e ao domínio afetivo da educação.
Além do conhecimento dos conteúdos pertinentes à matéria que leciona, o que seria básico na formação do educador, ou professor, ou docente, ou motivador, ou animador, ou mediador educacional?
Seja qual for o termo para sua designação, o importante, certamente, é o que o profissional faz, para que o faz e como o faz. Vamos adotar aqui o termo educador.
Gostaria inicialmente de chamar a atenção para o fato de que um educador, no exercício de sua função está em cena e age com base num roteiro pré-elaborado, mesmo que não tenha sido escrito, e tem espectadores mais ou menos ativos, que interagem com ele, mesmo que seja mantendo-se em silêncio.
O professor em cena utiliza, na maior parte do tempo, a comunicação verbal, mas também o gesto, o som produzido com seu corpo (hum hum...) os recursos audiovisuais, os arranjos espaciais (cenário). Trata-se, portanto, a aula, de uma espécie de encenação com certo grau de improvisação. Esse grau depende do quanto esteja pronto, aquilo que deve ser aprendido. É bom lembrar que nem tudo se aprende fazendo. Uma tocha humana, por exemplo.
Além do aprendizado do que não se deve fazer, a aprendizagem vicária (aquela que é fruto da experiência de outrem) nos permite perceber que existem patrimônios, materiais e imateriais, da humanidade, que devem ser transmitidos, para que se decida, em seguida, se devem mantidos ou descartados.
Feitas essas observações iniciais, gostaria de dar início ao exercício, compartilhado com vocês hoje, de pensar o que deve compor necessariamente um currículo de formação de educadores, além do conteúdo específico da matéria a ser lecionada.
De início é preciso que o educador perceba que, quando ele planeja, ele é um selecionador de estímulos, desde a sua simples presença em sala durante um trabalho de grupo, até a solicitação direta de um trabalho de pesquisa na biblioteca. A relação dialógica não implica em neutralidade e as contingências reforçadoras para a busca de comportamentos indicadores de progressão no campo intelectual devem ser positivas e não punitivas.
No planejamento didático deve-se atentar para a progressão gradual, aumentando-se gradativamente o nível de complexidade dos temas abordados. Esse planejamento deve contemplar todas as capacidades do ser humano, não somente a razão, como é costume acontecer nas escolas. As sensações, os sentimentos e a intuição devem ser também trabalhados no processo de construção do conhecimento. É combinando razão com as outras três capacidades citadas acima que o ser humano faz ciência, filosofia, religião e arte. Para isso o corpo deve estar presente integralmente, e a arte é um componente curricular privilegiado, ao lado da Educação Física, para se promover isso.No ensino desses componentes o corpo geralmente desprende-se da carteira, e isso já é um grande passo.
A avaliação deve ser contínua e formativa, com o estudante sendo estimulado a organizar seus estudos e progredir no que se refere às aprendizagens programadas. O programa deve uma proposta, e deve ser compartilhado com todos os envolvidos, no início do curso.
A pesquisa deve integrar sempre o processo educativo, com seu grau de formalização sendo introduzido gradativamente ao longo das séries. Desde a utilização de várias fontes bibliográficas na redação de um texto, ou a solicitação de uma lista de perguntas como base motivadora para a posterior exposição de um tema, até a realização de uma pesquisa formal, ao nível de cada estágio de aprendizagem.
No desenho espacial dos procedimentos didáticos as técnicas participativas contribuem significativamente para as aprendizagens, pois contemplam o falar e o fazer, além da escuta e do pensamento. A aproximação do estudante do universo do tema e a relação do tema com a vida cotidiana do estudante ocorrem com maior freqüência durante a aplicação dessas técnicas participativas.
Não existe processo sem produto, e vice-versa, e, além disso, as suas qualidades são interdependentes. No caso da Arte na Educação, por exemplo, a apresentação pública dos produtos, com a divulgação adequada, é importante, já que o artista aprende bastante na relação com o espectador.
As diferenças e as diversidades devem ser consideradas, o que não implica necessariamente em aceitação. O certo e o errado vão sendo construídos, de acordo com os referenciais dos participantes e com o contexto em que os fenômenos ocorrem. Nesse âmbito aparecem as reflexões e discussões acerca das tensões entre singularidade e universalidade. Há quem defenda, por exemplo, que a reafirmação do particular, ou do singular, é fundamental para a universalização de uma manifestação cultural. Existem muitas questões envolvendo o processo de globalização, que implica ao mesmo tempo em maior visibilidade e maior risco de homogeneização das manifestações culturais.
Uma habilidade a ser desenvolvida pelo educador é a de ter jogo de cintura para atuar com as condições disponíveis: as turmas são formadas com número excessivo de estudantes, o que impede uma atenção específica de acordo com o desempenho de cada um; as salas não são equipadas de modo a caber corpos soltos e expressivos; os horários destinados aos componentes curriculares que envolvem esse tipo de trabalho são bastante limitados ou inexistentes em algumas instituições; no caso do teatro, por exemplo, a carência dos recursos materiais e financeiros para elementos visuais da cena implicam em utilização de material reciclável e contribuições dos participantes; a indisposição de diretores e até de colegas com certos componentes curriculares requer um preparo teórico para argumentação nas reuniões e eventos, já que o lugar desses componentes no currículo muitas vezes precisa ser conquistado.
A resolução de problemas referentes a espaço, a salário, a autonomia, a capacitação, a atualização e a valorização profissional depende de vontade política, que em muitos casos depende de mobilização dos interessados. A omissão, a redução do grau de exigência no ensino dos conteúdos importantes e a aprovação indiscriminada para as séries seguintes só beneficia os interessados em que a educação seja de má qualidade e que os estudantes não se desenvolvam intelectualmente.
Finalmente, caberia chamar atenção de que, nessa época, ou nesse tempo, de grande quantidade de informações disponíveis, fruto dos avanços da tecnologia aplicada à comunicação, em que a vida parece correr à nossa frente, cada vez mais acelerada, é preciso pelo menos tentar dizer as coisas de maneira objetiva e sintética abrindo janelas que sirvam a quem se dispuser a aprofundar algum tema.
A educação ocorre em todos os espaços da sociedade e durante toda a vida do sujeito. Aprender é produzir conhecimento, adquirir habilidades e formar atitudes. Muita coisa se aprende fora da escola. A escuta sensível deve sempre estar presente nos processos educativos, assim como o diálogo, o que não quer dizer que não haja coisas importantes a serem transmitidas.
A vida é composta por descobertas, as relações humanas são complexas e compreender os fenômenos da natureza é produzir conhecimento a cada momento. As coisas e os fatos ganham significado na nossa relação com eles. Eles são compreendidos de acordo com referências, as mais diversas.
Os conhecimentos não devem permanecer dissociados o tempo todo, em categorias ou áreas, como se não tivessem relações entre si. É preciso desenvolver a habilidade de transitar entre as áreas. Isso é feito porque, no processo de construção do conhecimento aprendemos a discriminar (identificando as diferenças) e a generalizar (identificando as semelhanças) de maneira articulada.
Organizar esses processos é tarefa de um profissional da Educação. Ouvir, expressar-se e conceder a palavra são ações fundamentais para o crescimento intelectual de todos os envolvidos nos processos educativos. O desenho espacial dos ambientes educativos também é determinante na atuação do profissional que se dedica à educação dialógica. Um espaço programado para uma pessoa falar e as outras ouvirem tem um desenho diferente daquele que possibilita a expressão comprometida e o trabalho conjunto.
Desvalorizar a profissão do educador com baixos salários, com falta de condições de trabalho, é característico de todas as sociedades organizadas em bases de dominação. Não interessa a quem está no poder que a maioria da população desenvolva-se intelectualmente. O educador que, ao mesmo tempo em que luta por melhorias, não se dedica ao aperfeiçoamento do seu trabalho, faz o jogo do dominador.
Trata-se de uma profissão de grande valor para todas as sociedades. Ela pode promover tanto a acomodação e a subserviência quanto uma tomada de consciência seguida de ações transformadoras. Isso tem a ver com a história de vida e a visão de mundo do sujeito que se educa.
A formação do ser social resulta dos conhecimentos e das habilidades que o mesmo integra ao seu repertório, mas também de um conjunto de atitudes referentes ao domínio afetivo, que começam pela atenção ao que está sendo proposto e pela resposta a cada estímulo, passam pela capacidade de valorização das idéias e pela organização de um sistema de valores, para chegar à caracterização do sujeito, que exercita a cidadania com sua visão de mundo e sua filosofia de vida, que se percebe como ser social agente construtor e transformador da realidade.
Ao preparar este texto resolvi deixar para dizer no final algo que considero ser muito importante nos dias de hoje, que correm de maneira acelerada, repletos de fragmentos, de colagens de idéias. Precisamos incluir no currículo de formação de educadores a necessidade do exercício da síntese, da objetividade. Experimentar, por exemplo, usar dez minutos para dizer aquilo que usualmente duraria cerca de 30 minutos. Será que já consigo?
A meu ver são esses componentes curriculares num processo de formação de educadores que devem dar suporte aos roteiros dramáticos das encenações que levam à produção de conhecimento.
Bibliografia (Sugestões de leitura)
AGUIAR, Roberto A .R. de. Os filhos da flecha do tempo. Brasília: Letraviva, 2000.
DUARTE JR., João-Francisco. O sentido dos sentidos. A educação (do) sensível. Curitiba: Criar Edições, 2001.
GEERTZ, Clifford. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.
MAFFESOLI, Michel. A contemplação do mundo. Porto Alegre: Artes & Ofícios, 1995.
SILVA, Tomaz Tadeu da. Documentos de Identidade. Uma introdução às teorias de currículo. B. Horizonte: Autêntica, 1999.
SPOLIN, Viola. O jogo teatral no livro do diretor. S. Paulo: Perspectiva, 2001
A sociedade brasileira, fundada numa estrutura social de contrastes, desigualdades e injustiças, encontra-se ainda baseada num sistema de barreiras que dificultam ou praticamente impedem a autonomia, amobilidade e a ascensão social de amplos setores da população.
Um dos suportes desse quadro de relações de dependência e de dominação é o sistema de educação. Quando os integrantes desses setores populares têm acesso à educação formal, deparam-se com um ensino de baixa qualidade, que, em geral, ignora ou nega as identidades individuais e grupais, e não considera o ambiente social e a cultura própria do educando.
Novos paradigmas, entretanto, vêm se constituindo no campo da educação, indicando possibilidades da mesma acentuar valores humanísticos e formar sujeitos empreendedores, com múltiplas habilidades, incluindo as que se referem ao controle e à distribuição das informações.
A concepção de educação para a cidadania, componente de alguns desses paradigmas, surge no âmbito de um amplo movimento da sociedade civil, que parte da crítica da perspectiva assistencialista e da má qualidade da educação pública destinada às camadas populares, e que apresenta propostas para superação da condição subalterna dessas camadas, indicando possíveis caminhos em direção à sua autonomia.
O conceito de cidadania
Cidadão, no passado, era sinônimo de membro respeitável da sociedade. Nos tempos atuais o conceito de cidadão contempla todo membro da comunidade humana com direitos e deveres pessoais, universais, inalienáveis, naturais, transculturais, transhistóricos e transgeográficos.
É somente no século XIX que a questão dos direitos do homem assume um viés político, concretizando o acesso ao voto universal. No século XX, palco de lutas pela garantia dos direitos, da segurança econômica e social e da participação na distribuição da riqueza, constitui-se a cidadania social. O conceito de cidadania torna-se mais complexo envolvendo, ao mesmo tempo, o acesso a bens e serviços e a equalização social como garantia dos direitos.
É assim que se coloca inicialmente a questão da educação para a cidadania, que, para Balestreri, é educar para o reconhecimento da condição de direitos e deveres, independente de credo, raça, nação ou estrato social. Para o autor, é também educar para reconhecer e respeitar as diferenças no plano individual, combater os preconceitos, as discriminações, os privilégios no plano social. É educar para a luta política.
De acordo com essa conceituação, vemos que a educação para a cidadania deve ir além do nível discursivo, para ser exercida plenamente pela vivência, a partir de um conteúdo articulado com a ação transformadora do quadro social que se deseja aperfeiçoar.
Outro elemento que se apresenta como fundamental no tratamento da questão do direito a ter direitos (que, por sua vez, vão desde a moradia e a saúde, até a proteção ambiental) é a necessidade de articulação do direito à igualdade com o direito à diferença. Assim, a noção contemporânea de cidadania deve, hoje, incorporar as dimensões da subjetividade, do desejo, em suma, dos interesses.
Para o exercício da cidadania apoiada no direito a ter direitos, o caminho é, então, o tornar-se cidadão. Introduz-se, assim, uma nova dimensão, que é a de cidadania cultural, que incorpora a relação entre igualdade e diferenças na abordagem dos grupos étnico-culturais. É preciso garantir não só o acesso de todos aos bens obtidos ou construídos coletivamente (igualdade), mas também o direito de cada grupo étnico-cultural ter suas referências próprias, em geral resultantes de seu processo histórico, e não necessariamente comuns à maioria da população ou adotada oficialmente pelo Estado.
Sabemos que o acesso a bens e serviços, embora condição essencial para o exercício da cidadania, não garante o seu exercício pleno. O conhecimento sistemático, transmitido (e, por vezes, re-construído) via educação escolar, por exemplo, ao tempo em que se constitui num elemento importante na construção da cidadania, pode ser ensinado juntamente com hábitos e atitudes incompatíveis com uma prática cidadã. A idéia de que a equalização social se daria via democratização do acesso à Educação, encontra-se, hoje, superada.
Nesse contexto é que diversas instituições e grupos vêm, em todo o Brasil, desenvolvendo uma prática sócio-educativa alternativa com jovens e crianças, voltada para a formação da cidadania. De um modo geral, a prática dessas instituições tem as seguintes características:
·Utilizam metodologias inovadoras, de caráter interdisciplinar, com técnicas integrativas que proporcionam o diálogo entre educando e educador;
·Procuram integrar a família, o que só às vezes conseguem, e com muita dificuldade, nos processos de acompanhamento e avaliação da prática educacional;
·Desenvolvem um trabalho de reforço da auto-estima do educando, elemento fundamental para seu crescimento intelectual;
·Abordam a questão do significado da formação educacional como ferramenta para a mobilidade social.
Experiências de formação para a cidadania com arte-educação
Tendo como objetivo formar cidadãos conscientes de si, do outro, da realidade que os cerca e da sua capacidade de transformação, para que os mesmos venham a se inserir em práticas sociais de caráter solidário, é que diversas organizações, governamentais ou não governamentais, estimulam a percepção da igualdade e das diferenças, através da construção e reconstrução da identidade (ou identificação) cultural e da auto-estima. As artes cênicas aparecem como instrumentais privilegiados nesses processos de educação não-formal.
No Ceará, a Edisca – Escola de Dança e Integração Social para Criança e Adolescente realiza espetáculos com temas da cultura do Nordeste e com o povo nordestino como protagonista. Dora Andrade, sua diretora, vem mostrando nos palcos que é possível interferir no percurso de crianças e jovens que tinham as marcas do clima seco e da pobreza da região em que ela atua. São mais de 250 alunos que freqüentam a Edisca, com aulas de história da arte, teatro, canto e artes plásticas, além da dança. Eles recebem também atendimento médico, noções de higiene, alimentação e sexualidade, além de apoio aos estudos na rede formal de ensino. Alguns deles usam o que aprendem na Edisca para se colocarem no mercado de trabalho, assumindo, por vezes, o sustento da própria família. Entidades como essa demonstram que é possível realizar arte-educação numa perspectiva de formação para a cidadania, com recursos limitados. Projetos semelhantes estão sendo encaminhados pelo Ballet Stagium, de S. Paulo e pelo Grupo Corpo, de B. Horizonte.
Outra iniciativa é a da Associação Dançando para Não Dançar, do Rio. Thereza Aguilar, desde 1993, promove o ensino de balé clássico para moradores de sete favelas da cidade. Os alunos são crianças que vivem em situação de risco, e vários deles após a formação na Associação encaminham-se para Companhias de dança e alguns chegam a fazer estágios no exterior.
O Projeto Luar, na Baixada Fluminense, oferece aulas de dança clássica e contemporânea para cerca de 700 crianças e jovens. A Cia. Étnica de Dança e Teatro, também do Rio, realiza um trabalho com sessenta adolescentes no Morro do Andaraí reunindo movimentos oriundos das danças: clássica, afro-brasileira, indígena, oriental, e até das lutas, como explica Carmem Lux, graduada em Literatura e pós-graduada em Teatro. Carmem, coreógrafa autodidata que se considera uma performer, reconhece que usa e abusa dos movimentos corporais para discutir questões sociais de extrema gravidade, estimulando os alunos a usarem os espaços públicos, e impressionando pelo profissionalismo apesar da total falta de apoio material e financeiro. Agora o BNDES acena com a possibilidade de apoio ao trabalho de Carmem, o que já vem fazendo há cerca de três anos, a fundo perdido, com dezenas de projetos de cunho social, dentre eles, 81 iniciativas na área de arte-educação.
Algumas instituições apóiam trabalhos de arte-educação, como os Institutos Ayrton Senna e Credicard, e empresas como Petrobrás, Nestlé, Shell e até a Lufthansa. Por um lado, esse apoio garante um serviço, importante para asociedade, que o Estado não vem sendo capaz de garantir, e, por outro lado, contribui para a formação de uma boa imagem das empresas perante a população.
Na Bahia, o Projeto Axé destaca-se entre as instituições que vêm promovendo a formação de jovens dos setores populares para a cidadania, através da arte. Marle Macedo, coordenadora de cultura e arte explica que a entidade não vê a arte apenas como meio auxiliar na educação, mas sim como educação em si. Segundo Marle, são várias as formas de acesso à arte no Axé: o aprendizado técnico e teórico, com vista à profissionalização dos educandos; a sensibilização, buscando por meio da informação e da apreciação propiciar a experiência estética; e a motivação para a prática artística através do contato direto e prazeroso do jovem com a arte.
O Axé, desde a sua criação, em 1990, esteve voltado para a educação de crianças em situação de rua, ou seja, rianças dormindo e sobrevivendo na rua, crianças que estavam fora da família, da escola e da comunidade. Com o tempo, foram sendo também envolvidas as famílias das crianças e foi surgindo uma demanda espontânea de jovens em risco social que continuavam aviver com suas famílias, em bairros periféricos de Salvador. O projeto foi então ganhando uma dimensão mais ampla. O Axé, atualmente, promove também a capacitação de educadores e agentes sociais, para utilização de sua metodologia.
A Fundac, Fundação da Criança e do Adolescente, órgão do Governo do Estado da Bahia, encarregado do atendimento ao menor infrator, além das atividades de escolarização e profissionalizantes, oferece uma série de oficinas de arte que atendem às necessidades de re-socialização dos adolescentes em privação de liberdade, na perspectiva da valorização do indivíduo (considerando-se toda a sua experiência de vida), e do desenvolvimento de sua auto-estima.
O Liceu de Artes e Ofícios desenvolveu, em conjunto com a Secretaria de Educação e a Secretaria de Cultura do Estado da Bahia, durante quatro anos, o projeto Quem Ama Preserva. Oficinas de teatro foram realizadas em diversas escolas, envolvendo alunos professores e diretores. Delas resultou um texto que foi encenado por um grupo de atores contratados. O espetáculo intitulado Cuida bem de mim foi apresentado centenas de vezes, para um público de estudantes e professores, da maioria das escolas de ensino médio de Salvador e do interior do estado.
O tema colocado em pauta pelo Liceu era a depredação das escolas públicas, com desdobramentos referentes a suas possíveis causas e condicionantes. Os espectadores debatiam os temas abordados pelo espetáculo, após cada apresentação. Mesmo havendo um tema central, abordava-se, com o espetáculo, todas as questões referentes à escola pública, da questão salarial dos professores aos conflitos familiares vividos pelos alunos. Muitos desdobramentos desse trabalho de apreciação do espetáculo surgiram nas escolas, através de iniciativas concretas de cuidado com o espaço coletivo e de ações integradoras e cooperativas.
Os trabalhos desenvolvidos pelo Cria - Centro de Referência Integral para Adolescentes, em Salvador, estão baseados principalmente no teatro e enfocam temas sociais emergentes e de interesse dos jovens como sexualidade, educação, etnia, violência, discriminação, cidadania e meio ambiente, numa abordagem integrada, que articula aspectos bio-psico-sociais e culturais.
A metodologia adotada pelo Cria integra as linguagens artísticas em trabalhos de grupo, articulando o sentir, o pensar e o fazer, buscando o desenvolvimento da auto-estima, da criatividade e da consciência crítica, para exercício pleno da cidadania. Para isso o Cria recorre a procedimentos que consideram a integralidade do ser, e que consideram que o educando é dotado de um corpo pensante e de sentimentos, com múltiplas possibilidades de expressão e comunicação.
Muitas oficinas de teatro já foram realizadas pelo Cria, e dois grupos de teatro, A Tribo do Teatro e o Mais de Mil, estão em atividade constante, renovando-se a cada oficina. Suas apresentações são sempre seguidas de debate com a platéia, em escolas, centros de saúde e teatros. O Cria estende sua experiência também através da capacitação de professores da rede pública e de profissionais dos serviços de saúde, e da formação de jovens multiplicadores que passam a atuar como lideranças em suas escolas e comunidades.
Competências a serem desenvolvidas numa nova sociedade
Tendo em vista a necessidade de se respeitar a identidade cultural, que tipo de habilidade e de capacidade é preciso se desenvolver nos participantes dos processos educativos, para que esses indivíduos exerçam não só sua competência técnica, mas também sua criatividade e sua sensibilidade? E como a arte-educação pode contribuir com esse processo?
Robert e Michèle Root-Bernstein, autores do livro Lampejos de gênio (Sparks of Genius, Houghton Mifflin Co., 1999), indicam como fundamentais as capacidades de observação e de abstração, ressaltando que a articulação entre intelecto e intuição é fundamental para que o indivíduo exerça sua capacidade de imaginação.
A capacidade de perceber o mundo e criticá-lo, permite-nos discernir padrões adequados de ação social, abstrair princípios norteadores de conduta, estabelecer analogias, criar modelos próprios, individual e coletivamente, e promover inovações construtivas.
No que se refere ao ator, a capacidade de criar imagens é fundamental para seu trabalho. A visualização das falas, por exemplo, no processo de construção e interpretação de personagens, através do método da análise ativa (Stanislávski), requer agilidade de pensamento visual. Tendo que fazer isso em cena, o ator deve ser capaz de imaginar formas com os olhos abertos, sobrepondo-as a outras formas; formas que mudam de cor, tamanho, perspectiva, etc. O ator não pode, ou não deve, desenhar, ou traçar com os dedos os contornos da forma que precisa imaginar; nem é o caso de fechar os olhos, como muitas pessoas fazem para ver algo que não está materializado diante de si. Em suma, observar, imaginar, e criar são habilidades, dentre outras, que são aprendidas e aperfeiçoadas. A arte-educação baseada no teatro pode dar uma contribuição significativa para esse tipo de aprendizagem, além de ser um campo privilegiado para articulação entre intelecto e intuição.
Os procedimentos de leitura de um texto dramático, ou de um texto de história, bem como a apreciação de um espetáculo, podem, e devem, ser usados como recursos para o desenvolvimento da capacidade de imaginar. Um exercício de teatro, durante o qual alguns alunos contam seqüencialmente uma história enquanto outros a vão representando, é uma forma de se exercitar essa capacidade.
Costumamos utilizar também um exercício que inclui um relaxamento inicial, com o ator deitado, percebendo a sua respiração, as tensões do seu corpo, a relação do mesmo com o solo. Em seguida, os participantes são convidados a permanecerem com os olhos fechados, imaginarem uma grande superfície e a partir de nossas indicações irem compondo imagens, cenas e situações dramáticas, com cores, objetos, texturas, figuras humanas (personagens), dialogando com as mesmas, estabelecendo conflitos e elaborando finais para os enredos criados no campo do imaginário.
Define-se abstração como sendo a possibilidade de se considerar um objeto ou um grupo de objetos sob um ponto de vista, ao mesmo tempo em que se descartam todas as suas outras propriedades. Por outro lado, o movimento inverso também é fundamental para a percepção do objeto: a partir de um elemento, conseguir chegar ao conjunto, ao todo, elaborar conceitos, estabelecer relações e analogias, criar conceitos a respeito de dimensões que vão além do espaço e do tempo já conhecidos, elaborar sínteses (afinal, os espetáculos são expressões sintéticas de longos processos criativos coletivos) reconhecer padrões, o que, por sua vez, requer observação e análise.
Dos padrões que reconhecemos, retiramos princípios gerais de percepção e de ação e buscamos neles nossas expectativas. Introduzimos neles outras observações e experiências formando, então, novos padrões.
Formular abstrações é outra habilidade que pode ser desenvolvida em processos de arte-educação. Por exemplo, ao se criar uma cena, escolhe-se um tema e um ponto de vista; pensa-se de uma maneira realista sobre eles; brinca-se mentalmente com seus vários elementos, definindo-se, depois, o que é essencial; busca-se alternativas aos resultados obtidos, procurando-se um distanciamento deles; enuncia-se a abstração, escolhendo-se um meio ou uma linguagem para expressa-la, extraindo-se dela, em seguida, um conceito ou metáfora.
O elemento lúdico, muito presente na prática teatral, é também importante para a consecução do ato criativo. As idéias e a intuição são transformadas por meio dos vários mecanismos de pensamento e são expressas através de diferentes linguagens. O uso simultâneo de múltiplos instrumentos imaginativos revela um pensamento transformador, fundamental para o exercício da cidadania, que requer a fluência na comunicação.
Para alcançar a fluêncianos processos de comunicação, por sua vez, é fundamental o estabelecimento da empatia. Em todos os campos de trabalho, como entre médico e paciente, entre vendedor e comprador, entre advogado e cliente, é preciso ocorrer identificação, empatia. Colocar-se no lugar do outro (algo que é praticado intensamente no teatro) é um caminho para se chegar à empatia. O ator pode desenvolver essa capacidade tanto nos exercícios de criação e interpretação de personagens, como através da apreciação de espetáculos e da leitura e análise de textos.
Natureza e sentido da arte-educação
As atividades educativas que envolvem a expressão artística, a dinâmica corporal e a experiência estética são a base para o educando organizar percepções, classificando e relacionando eventos, construindo, com todas as suas capacidades, um todo significativo.
Uma atenção do educador para o domínio afetivo do desenvolvimento, pode possibilitar ao estudante situar-se no processo educativo, de forma a constituir a sua própria filosofia de vida, a sua visão do universo, caracterizando-se. São atitudes e comportamentos que vão desde a percepção do que acontece no ambiente escolar, e a atenção seletiva, até a organização de um sistema de valores.
A educação do ser integral, para o exercício da cidadania, não deve, portanto, restringir os componentes de aprendizagem ao domínio cognitivo, ao desenvolvimento do intelecto. As técnicas e práticas corporais, as experiências de pensar com o corpo, presentes nos jogos e nos exercícios de improvisação das nossas oficinas de teatro são elementos para a vitalização e o equilíbrio do ser, de maneira articulada, em todos os níveis: físico, emocional, mental e espiritual.
O homem, que é entre os animais o único que possui a dimensão simbólica (a palavra), tem na linguagem o instrumento básico de ordenação esignificação do mundo. O homem é o único ser que tem consciência de outras dimensões e outros tempos. A radical diferença entre o homem e os outros animais é a sua consciência reflexiva, simbólica.
O homem imprime sentido a suas ações, e à sua sobrevivência, o que não tem a ver só com a manutenção biológica da vida mas também com o significado do sentido da vida. O homem é capaz de construir valores, sonhos, ideais. Assim, compõe a sua vida exercendo as suas múltiplas capacidades: razão, sentimento, sensação e intuição. Com a supervalorização da razão, o homem compromete a sua evolução estética. E a evolução estética não se refere apenas à sua capacidade de fazer e apreciar arte, refere-se também a uma integração de todas as suas capacidades.
Além disso, o mecanismode construção do conhecimento é um jogo dialético entre o que é sentido/vivido e o que é simbolizado. Garantir um lugar para a arte no processo educativo, partindo do que o educando já conhece e do que para ele é relevante, é um modo de ampliar as possibilidades de formação de um ser capaz de organizar percepções, classificando e relacionando eventos, construindo, com todas as suas capacidades, um todo significativo.
Uma atenção do educador para o domínio afetivo do desenvolvimento, pode possibilitar ao estudante situar-se no processo educativo, de forma a constituir a sua própria filosofia de vida, a sua visão do universo, caracterizando-se. São atitudes e comportamentos que vão desde a percepção do que acontece no ambiente escolar, e a atenção seletiva, até a organização de um sistema de valores.
Para a formação de sínteses, e seu entendimento, é preciso unir o componente estético das experiências sensoriais ao que o sujeito conhece (intelecto). O teatro-educação apresenta-se como meio privilegiado para se promover isso, na medida em que adota exercícios que praticamente fazem o sujeito pensar com o corpo, recorrendo a componentes de sua personalidade e articulando-os num trabalho criativo e de intenso grau de comunicação entre indivíduo e grupo e entre artista e público.
Dessa forma, uma educação que contemple os sentimentos, as sensações e a intuição, tanto quanto a razão, levando em conta o imaginário, os desejos e os sonhos dos educandos, uma educação que supere as tradicionais fronteiras estabelecidas entre as disciplinas, tem sido o caminho buscado por arte-educadores para a formação da cidadania, com a participação de todos os envolvidos como sujeitos da história.
A educação do ser integral deve visar, portanto, a vitalização e o equilíbrio do ser, de maneira articulada, em todos os níveis: físico, emocional, mental e espiritual. Desenvolvendo-se nos quatro níveis, de maneira articulada, buscando competências de ponta e dando um tratamento integrador aos conhecimentos construídos, o sujeito vai definindo e aperfeiçoando sua relação com o todo. Assim, ele se re-descobre como cidadão, redefine seu papel em cada instituição, em cada tribo a que está vinculado, situando-se na história como agente.
Diante do exposto, podemos dizer que coloca-se como desafio para os educadores, realizar um trabalho de conscientização (tomada de consciência mais ação) que desenvolva o senso estético de maneira associada ao senso crítico e à elevação da auto-estima, a partir da re-valorização das matrizes culturais de cada grupo social, para que o educando se constitua como sujeito político, capaz de compreender as relações estabelecidas na sociedade, questiona-las e perceber-se em condições de transforma-las.
A arte-educação, com base na metodologia triangular (história, apreciação, prática teatral) constitui-se, a nosso ver, um caminho para o aprendizado de um entendimento sintético. O grande desafio na formulação de novos paradigmas no campo da educação como um todo, é o de reintegrar os campos do conhecimento e rearticular o sentir e o saber, a análise, a emoção e a tradição, superando os limites do trabalho educativo baseado apenas no intelecto, na memória, no raciocínio lógico linear.
Todas essas capacidades mencionadas são importantes para o artista cênico, que vive cotidianamente o desafio de analisar textos, construir personagens, criar coletivamente espetáculos, e comunicar-se com o público.
A criação de uma proposta metodológica reunindo os elementos mencionados acima, na prática artística, e associando essa prática ao estudo da história da criação artística e à apreciação do espetáculo, visando a formação do jovem ator para a cidadania, constitui-se, num grande desafio para os que se dedicam atualmente ao Teatro-Educação.
Sugestões de Leitura / Bibliografia:
BARBOSA, Ana Mae.Arte-Educação: conflitos/acertos. SP: Max Limonad, 1985.
_______________. Teoria e Prática da Educação Artística. S.Paulo: Cultrix, 1990.
_______________. A imagem no ensino da arte. S. Paulo: Perspectiva, 1996.
_______________. Tópicos Utópicos. B. Horizonte: C/ Arte, 1998.
COURTNEY, Richard. Jogo, teatro e pensamento.SP : Perspectiva, 1980.
DOURADO, Paulo e MILET, Maria Eugênia. Manual de criatividades. Salvador; Funceb: EGB, 1997.
DUARTE Jr. , Por que arte-educação? . Campinas: Papirus, 1986.
__________. Fundamentos estéticos da Educação .Campinas: Papirus, 1988.
FUSARI, Maria R.eFERRAZ, Maria H. Metodologia do ensino de arte. S.Paulo: Cortez, 1993.
GIROUX, Henry. Escola crítica e política cultural. S. Paulo: Cortez, 1987.
GONÇALVES ALMEIDA, Fernanda. De olho na rua: O Axé integrando crianças em situação de risco. Salvador: EdUFBA, 2000.
HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 1998.
KOUDELA, Ingrid Dormien(Org).Um vôo brechtiano. S. Paulo: Perspectiva: Fapesp, 1992.
________________________. Jogos teatrais. S. Paulo: Perspectiva, 1984.
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